A Tolerância

  1. Nada é em vão. Se não é benção. É lição! A respeito da TOLERÂNCIA, há um ditado que diz: SÊ COMO O SÂNDALO, QUE PERFUMA O MACHADO QUE O FERE.
  2. O que é a tolerância? VOLTAIRE responde afirmando: “Tolerância é a consequência necessária da percepção de que somos falíveis: errar é humano, e estamos o tempo todo cometendo erros. Perdoemos, então, as loucuras uns dos outros. Esse é o fundamento do direito natural”.
  3. DEVEMOS TOLERAR TUDO? Está é uma reflexão que devemos realizar nesses dias de PANDEMIA, que nos obrigou ao isolamento. Assim, tornou-se necessário nos distanciar uns dos outros. Este insulamento, de modo geral, trouxe-nos algumas dificuldades – ACEITAR mais intensamente os problemas diários da família.
  4. KARL R. POPPER, chama de PARADOXO DA TOLERÂNCIA – “Se formos de uma tolerância absoluta, mesmo com os intolerantes, e se não defendermos a sociedade tolerante contra seus assaltos, os tolerantes serão  aniquilados e com eles a tolerância”. Isso só vale na medida em que a humanidade é o que é, conflitual, passional, atormentada, mas é por isso que vale. Humildade e misericórdia andam juntas, e esse conjunto, no que se refere ao pensamento, conduz à tolerância. André Comtem-Sponville diz: “como a simplicidade é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos, assim a tolerância é sabedoria e virtude para aqueles que – todos nós – não são nem uma coisa e nem outra”.
  5. Por sua vez, a casa tornou-se um local de residência, trabalho e lazer. Somos seres sociais por excelência e estamos habituados a CONVIVER, que significa viver com o outro. Amai-vos uns aos outros, assinalava JESUS reiteradamente. E, para amar uns aos outros, devemos conviver com o outro, para conhecê-lo e aceitar sua diferença.
  6. Mas, antes de aceitar a diferença do próximo não somente devemos estar com ele, mas, sobretudo, desenvolver nossa TOLERÂNCIA. E, é sobre ela que devemos falar.
  7. O que é TOLERÂNCIA? É uma norma ou princípio de liberdade religiosa. Pode ser SUPORTAÇÃO. Que por sua vez, quer dizer ACEITAÇÃO, porque quem tolera, suporta e aceita o outro. Na verdade, uma coexistência pacífica diante de ideias e comportamentos antagônicos.
  8. O famoso conto de BOCCACCIO dos três anéis (DECAMERON, 28) concedida igualmente a maometanos, judeus e cristãos. Em 1565, GIACOMO ACONCIO, em seu STRATAGEMATA SATANAE, via a intolerância religiosa como uma armadilha de Satanás e afirmava que é essencial à fé apenas aquilo que encoraja a esperança e a caridade. (ABBAGNANO, 2007, 1143).
  9. Quem primeiro baseou a defesa da TOLERÂNCIA, em argumentos objetivos foi ESPINOSA, que apresentou em seu favor o argumento por excelência, ou seja, a violência e a imposição não podem promover a fé, portanto, as leis que se propõem esse fim são inúteis (ABBGNANO, 2007, p. 1143).
  10. A TOLERÂNCIA é, dessa forma, a convivência pacífica entre os cidadãos dentro da sociedade, onde deve ser observado o princípio neminem laedere. Nós juízes não julgamos a pessoa diante da sua liberdade de agir! Aplicamos à lei ao caso concreto, diante das ações violadoras dos seus agentes. Apenas isso! Não somos e nem nos arvoramos na insustentável ideia de que somos DEUSES, autorizados a julgar a pessoa diante dos seus atributos personalíssimos.
  11. Ela deve ser entendida, como um pluralismo de valores, de grupos e de interesses na sociedade contemporânea – em que permeiam intolerâncias religiosas, políticas, sociais, ideológicas, raciais, gêneros e tantas outra que nos separam e nos tornam antagônicos.
  12. Ou ainda, que imponham uma forma de viver ou que identifique um obstáculo à realização de uma nova forma de sociedade – mais humana e justa. Segundo MARCUSE, em A CRÍTICA DA PURA TOLERÂNCIA DE 1965, a intolerância não pode ser admitida, porque nesse caso equivaleria à repressão de todos os fatores de inovação da realidade social. (ABBGANANO, 2007, p. 1144).
  13. Na concepção de POPPER, a tolerância é insubstituível no ponto de vista epistemológico como condição para o caminho da verdade e da razão. Ela é sinônimo de racionalidade, enquanto a intolerância equivale a irracionalidade – somente a DEMOCRACIA, admite o exercício pleno da tolerância.
  14. Por sua vez, temos que considerar que a Doutrina Espírita adota o princípio da convivência social, sendo visceralmente contrária ao isolamento dos seres humanos de forma meramente contemplativa, eis que as pessoas foram criadas por DEUS para viverem em conjunto e em harmonia. Os questionamentos e respostas contidos no LIVRO DO ESPÍRITOS, de números 766 a 775, apontam inexoravelmente para esta realidade.
  15. Na pergunta número 767 Kardec indaga: “O isolamento absoluto é contrário à lei da natureza?” E a resposta do Espírito da verdade é precisa ao afirmar: “Sim, pois os homens buscam instintivamente a sociedade e todos devem concorrer para o progresso, ajudando-se, mutuamente”.
  16. Na resposta à pergunta número 768, ela elucida a questão da vida social, ao afirmar: “O homem deve progredir. Sozinho, isto não lhe é possível, por não dispor de todas as faculdades precisa do contato com os outros homens. NO ISOLAMENTO ELE SE EMBRUTECE E DEFINHA.
  17. A função social do homem resulta dos princípios apregoados por Aristóteles, em que o homem é um animal social por excelência, onde predomina a importância e a necessidade da convivência com os seus semelhantes, mesmo por questões de sobrevivência física como igualmente social e espiritual.
  18. A sociedade é um fato natural determinado pela necessidade que o homem tem de viver com os seus semelhantes. O homem para viver isolado, fora da sociedade, deveria ser (consoante escreveu Aristóteles) – UM BRUTO OU UM DEUSou seja: qualquer coisa de menor ou qualquer coisa de maior que o homem (DEL VECHIO, 1979, p.460.
  19. GRÓCIO, expondo o conceito aristotélico, afirmou do homem que ele tem um APPETITUS SOCIETATIS natural. (DEL VECCHIO, 1979, p. 460).
  20. Segundo GIORGIO DEL VECCHIO (DEL VECCHIO 1979, p. 463). A progressividade é precisamente um dos elementos que distinguem a sociedade humana das sociedades animais. PLATÃO define o Estado (forma típica, especialmente para os gregos, da sociedade) UM HOMEM EM PONTO GRANDE.
  21. Dessa forma, observando o HOMEM sob a ótica filosófica e sociológica, observa-se a importância do contato social entre as pessoas, que se unem através desses laços, mas que se solidificam sob a perspectiva da Espiritualidade.
  22. Não podemos descurar dos elementos associativos presentes no casamento através do vínculo affectio maritalis e na sociedade comercial através do afecctio societatis.
  23. Afinal, o interesse do homem, para nós espíritas, não se resume apenas no atendimento das exigências estabelecidas pela matéria e voltado exclusivamente para o atendimento das necessidades patrimoniais e meramente satisfativas dos seus interesses egoísticos.
  24. A realidade da vida envolve a plena satisfação das nossas necessidades evolutivas, no alcance do aprimoramento espiritual mediante a utilização dos mecanismos de crescimento da consciência.
  25. A existência para o espírita não é nem poderá se resumir no viver a vida, sob a perspectiva meramente material – essa é uma função dos animais. Nós, os seres humanos, somos movidos pelos sentimentos, pela razão, pela inteligência e sobretudo pelo amor, decorrente do nosso envolvimento com o outro. Somos seres sociais por excelência.
  26. A proposta que a doutrina espírita apregoa e nos chama à consciência, reside na compreensão e conhecimento desta grande realidade que nos movem na direção de DEUS e dos planos superiores na espiritualidade.
  27. Somos seres destinados à felicidade e ao controle das nossas emoções, que muitas vezes nos atormentam por consequência do nosso desconhecimento da dinâmica do espírito e do universo – vivo e latente que está à nossa frente.
  28. É preciso vê-lo, através dos olhos do espírito, porque os olhos da carne são limitados e não conseguem explorar a imensidão presente no universo da espiritualidade. Somos seres grandes, quase sempre sem o sabermos, e devemos corresponder à essa imagem.
  29. A TOLERÂNCIA, como a indulgência, é o caminho da conciliação e da harmonia. Ela é a linha do pensamento do Cristo. Sem tolerância não há convivência e sem o hábito de estar junto com o outro, estaremos sozinhos! Não devemos esquecer de que aquele que tolera está preparado para aceitar o próximo no seu círculo de relações.
  30. E. ele poderá ser ampliado se a pessoa aumentar sua capacidade de tolerar. O maestro percebe as tonalidades diferenciadas dos diversos instrumentos e os harmoniza no conjunto, para formar a melodia da música.
  31. JESUS, nosso irmão maior, foi o grande MESTRE E MAESTRO de uma orquestra imensa de pessoas que “tocavam instrumentos diferentes” e, harmonizando-os, conseguiu reunir milhares de pessoas para ORQUESTRAR a melodia divina.
  32. TOLERAR é a ordem do dia. É o momento que se faz necessário diante de tantas divergências e opiniões contraditórias, que nos separam uns dos outros.
  33. A PANDEMIA, talvez seja uma advertência, como se disse, para uma reflexão sobre a hora de superar nossas dificuldades para aceitar o próximo como ele é! E, assim, aproveitar a oportunidade do isolamento para unirmo-nos uns com os outros, com o propósito de realizar uma autoconstrução na direção de DEUS.
  34. Afinal, segundo o ensinamento de TEILHARD DE CHARDIN: SER É SER UNIDO E UNIFICADO POR UM OUTRO. E, registremos também as leis da união que decorrem de sua aplicação concreta – A UNIAO CRIA, A UNIAO DIFERENCIA E A UNIAO PERSONALIZA. (CHARDIN, 1995, p. 29).

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Clayton Reis

Diretor Doutrinário na ABRAME, Juiz aposentado, Escritor, Professor Universitário e Advogado.