Letargia moral

A princípio, gostaria de destacar que a Revista Espírita de Allan Kardec, mantida por ele durante 136 meses, de janeiro de 1858 a abril de 1869, ainda é desconhecida por grande parte do Movimento Espírita, bem como traz lições valiosas e atuais que nos inspiram o crescimento espiritual.

Com o escopo de demonstrar a grandeza e a atualidade dessa obra de Kardec, trago à tona uma comunicação do Espírito Lamennais, intitulada Alegoria de Lázaro:

“Cristo gostava de um homem chamado Lázaro. Quando soube de sua morte, grande foi a sua dor e se fez levar até o seu túmulo. A irmã de Lázaro suplicava ao Senhor, dizendo: ‘É possível restituirdes a vida a meu irmão? Ó vós, que o amáveis tanto, devolvei-lhe a vida!’
Mundo do século dezenove, também estás morto. A fé, que é a vida dos povos, extingue-se dia a dia; em vão alguns crentes quiseram despertar-te de tua agonia. É muito tarde. Lázaro está morto. Só Deus o pode salvar.
Então o Cristo se fez conduzir ao túmulo. Levantaram a pedra do sepulcro; cercado de faixas, o cadáver se apresentou em todo o horror da morte. Cristo lançou um olhar para o céu, tomou a mão da irmã, e levantando a outra mão para o alto, exclamou: ‘Lázaro, levanta-te!’ Apesar das faixas, a despeito do sudário, Lázaro despertou e se levantou.
Ó mundo, tu pareces Lázaro; nada te pode devolver a vida. Teu materialismo, tuas torpezas, teu ceticismo são outras tantas faixas que envolvem o teu cadáver, e cheiras mal, porquanto há muito estás morto. Quem te gritará como a Lázaro: Em nome de Deus, levanta-te? É o Cristo, que obedece ao apelo do Espírito Santo. Século, a voz de Deus se fez ouvir! Estarás mais corrupto do que Lázaro?” 1

A mensagem de Lamennais faz uma bela conexão com a conhecida passagem da ressurreição de Lázaro,2 o qual, na perspectiva espírita, ainda não havia desencarnado, mas estava em estado de letargia.

Essa passagem evangélica traz um belo ensinamento espiritual, porque podemos olhar a letargia de Lázaro sob a ótica moral, por isso, Lamennais faz menção de que o mundo do século XIX estava morto.

Aliás, nessa linha de pensamento, podemos, infelizmente, afirmar que, até hoje, grande parte das criaturas humanas ainda continua em estado de letargia moral, isto é, não se preocupa com o real propósito da vida, com a busca dos valores nobres ensinados por Jesus e com a própria espiritualização.

Nesse sentido, seguindo com a simbologia da passagem em foco, há indivíduos que se assemelham a Lázaro, aguardando o despertar da consciência para entender que a vida tem um sentido maior e sublime, e que trazemos na intimidade espiritual os valores divinos que aguardam seu desabrochar através das escolhas mais salutares sob a égide do amor, esse sentimento sublime que exprime o esforço vivencial de colocar os bons sentimentos na pauta das nossas ações e pensamentos.

O Espírito Lamennais, de forma pedagógica, enfatiza o enfraquecimento da fé, que suscita, a meu ver, a desesperança e o desânimo, em razão das faixas e padrões comportamentais e emocionais que sustentamos, assim como Lázaro, que, ao despertar da letargia, também trazia faixas enroladas em seu corpo, que deveriam ser retiradas.

A comunicação espiritual, a título de exemplo, menciona as faixas de materialismo, de torpezas e de ceticismo, que, de fato, estão presentes na vida de inúmeras pessoas, infelicitando-as e gerando atraso espiritual em seus processos evolutivos.

O materialismo que aflige incontáveis pessoas em pleno século XXI não é necessariamente o clássico, o convencional, quando não se acredita em nada além da matéria, eliminando a crença em Deus e que temos um Espírito que sobrevive à morte do corpo físico, conquanto esse tipo de pensamento possa gerar notórios prejuízos espirituais e morais.

É o denominado materialismo vivencial que tem engessado o progresso espiritual, conforme propõe o Espírito Camilo, na obra O Tempo de Deus,3 pois muitas pessoas acreditam em Deus e no Espírito, mas suas escolhas priorizam os prazeres materiais, o imediatismo, os vícios em geral, o culto ao corpo, e defendem o abortamento e a pena de morte etc.

Em consequência, sustentam suas vidas vazias de ideais superiores, prolongando a letargia moral.

Por isso, os benfeitores espirituais, na questão 799 de O Livro dos Espíritos,4 asseveraram que o Espiritismo contribui com o progresso ao destruir o materialismo, que é uma das chagas da sociedade.

A torpeza, por sua vez, faz com que algumas pessoas adotem condutas vis, indecentes, indecorosas, sob a ótica moral, uma vez que ainda não despertaram para os valores do bem e da ética que enobrecem a vida na Terra e enriquecem de bênçãos as relações humanas.

Nesse clima de torpeza, alguns são capazes de agir de forma agressiva, impositiva e indecente para atender seus interesses e caprichos pessoais e egoístas, não se preocupando se gerarão sofrimentos a outrem ou prejuízos coletivos e sociais, pois não conseguem pensar de forma empática e solidária.

O ceticismo ainda se agita em muitas mentes e corações, gerando um estado doentio de dúvida e descrença em relação às coisas espirituais, ao divino, ao próximo e a si mesmo.

Um indivíduo nesse estado da alma tende a ter mais tristezas, inseguranças e fragilidades diante dos naturais desafios da vida, não encontrando, às vezes, força para seguir adiante, para renovar as ações, para ser resiliente, estacionando, momentaneamente, e afetando de modo negativo algumas pessoas da sua relação mais próxima.

Há outras faixas que nos sufocam e dificultam o crescimento espiritual, como o egoísmo, o orgulho, os conflitos existenciais não identificados e não tratados adequadamente, as emoções adoecidas.

Como propõe a passagem do Evangelho e o alerta de Lamennais, é necessário despertar, sair da letargia, libertar-se das faixas constritivas da evolução.

Lázaro despertou após o chamado do Cristo e, mesmo após sair do sepulcro, que simboliza uma espécie de prisão moral, e retirar as faixas do corpo, foi dito por Jesus que o deixassem seguir, o que representa o exercício do livre-arbítrio.

As lições inesquecíveis de Jesus ecoam em nossas almas há mais de 2 mil anos como um chamado, um despertamento para a vivência do bem e da paz, mas muitos ainda permanecem, por opção, em estado de podridão moral (Lamennais diz que podemos estar mais corruptos que Lázaro), sufocando-se e infelicitando-se com as faixas do materialismo, da torpeza, do ceticismo.

O chamamento de Jesus, sob a égide do Pai Celestial, ecoou novamente na Terra através do Consolador Prometido, como ecoou anteriormente nas vozes e nos exemplos de muitos missionários que reencarnaram para nos ensinar a importância do amor e de uma vida rica de espiritualidade, como fez, por exemplo, Francisco de Assis.

O Espiritismo, sendo o Cristianismo Redivivo, nos conclama à cosmovisão da vida, a fim de entendermos o verdadeiro propósito existencial, que é o nosso progresso intelecto-moral, assim como a necessidade do autoconhecimento, para identificarmos as faixas, os padrões, as más inclinações que trazemos de vidas pregressas, tudo para que haja um despertamento espiritual e possamos vencer a letargia moral.

Vejamos outra bela mensagem espiritual que encontramos na Revista Espírita, destacando a importância do Espiritismo para que a criatura humana possa despertar e entender a necessidade de ter uma vida com riqueza moral:

“Um dia surgiu uma fonte numa região outrora estéril. A princípio não passava de um delgado filete de água a correr na planície, ao qual não deram muita atenção… Pouco a pouco esse fraco regato engrossou, tornando-se ribeirão; alargou-se, invadiu terras vizinhas, mas as que ficaram descobertas foram fertilizadas e produziram a cem por um. Contudo, um proprietário ribeirinho, descontente por ver seu terreno recuado, tentou deter o curso para reconquistar a porção coberta pelas águas, julgando, assim, aumentar as suas riquezas. Ora, aconteceu que, reprimido, o ribeirão submergiu tudo, terreno e proprietário.

Tal é a imagem do progresso; como um rio impetuoso, rompe os diques que se lhe opõem e arrasta com ele os imprudentes que, em vez de lhe seguir o curso, procuram travá-lo. Será o mesmo com o Espiritismo. Deus o envia para fertilizar o terreno moral da Humanidade. Bem-aventurados os que souberem aproveitá-lo e infelizes os que tentarem opor-se aos desígnios de Deus! Não o vedes avançar a passos de gigante pelos quatro pontos cardeais? Por toda parte sua voz se faz ouvir e em breve cobrirá de tal modo a dos inimigos, que estes serão forçados ao silêncio e constrangidos a curvar-se ante a evidência. Homens! os que tentam entravar a marcha irresistível do progresso vos preparam rudes provas. Deus permite que assim seja para castigo de uns e glorificação de outros; mas vos dá no Espiritismo o piloto que vos deverá conduzir ao porto, levando nas mãos a bandeira da esperança.” 5

Que o episódio da ressurreição de Lázaro nos inspire um despertamento moral mais profundo e consentâneo com as lições ensinadas por Jesus e relembradas pelo Espiritismo, a fim de que possamos renascer espiritualmente ainda nesta existência física, vencendo, em definitivo, a letargia e a apatia moral que insiste em nos enfaixar, limitando e dificultando as possibilidades que temos de caminhar na direção do divino.


Publicação Original:
PAULA, Alessandro Viana Vieira de. Letargia moral. Jornal Mundo Espírita, Curitiba, ago. 2026. Disponível em: https://www.mundoespirita.com.br/?materia=letargia-moral.

Referências:

  1. KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Ano 1860, v. 12. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2004. Dissertações espíritas recebidas e lidas na Sociedade por diversos médiuns: Alegoria de Lázaro. ↩︎
  2. BÍBLIA. N. T. João. Português. O Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 11, v. 1-29. ↩︎
  3. TEIXEIRA, José Raul; CAMILO (Espírito). O tempo de Deus. Niterói: Fráter, 2019. cap. 16. ↩︎
  4. KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Ano 1861, v. 5. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2004. Ensinamentos e dissertações espíritas: A inundação. ↩︎
  5. KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Ano 1861, v. 5. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2004. Ensinamentos e dissertações espíritas: A inundação. ↩︎
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Alessandro Viana Vieira de Paula

Diretor Doutrinário na ABRAME, escritor, palestrante e articulista.