Essa frase metafórica foi adaptada por mim com base em uma que li nas redes sociais. E ela tem significado profundo na seara espírita, especialmente porque pode ser compreendida à luz da lei de causa e efeito.
Um dos pontos fulcrais da Doutrina Espírita é que as expiações e as provas não são castigo de Deus. São, respectivamente, oportunidades de reeducação diante da responsabilidade por atos que violaram a lei de justiça, amor e caridade, e desafios que, vencidos, impulsionam o progresso evolutivo.
Ocorre que muitos não compreendem que as dificuldades encontradas no roteiro são possibilidades que Deus concede, a fim de que as Suas criaturas se aprimorem, uma vez que Ele as criou para a felicidade.
Assim, pode-se afirmar com segurança que o telhado tirado corresponde a um sofrimento, seja oriundo de uma expiação, seja proveniente de uma prova, que, enfrentado, descortina o caminho evolutivo que possibilita enxergar a grandeza da Casa do Pai.
O livro Ave, Cristo! traz um belíssimo poema, cujos versos vão ao encontro da interpretação do tema deste artigo:
Estrelas — ninhos da vida,
Entre os espaços profundos,
Novos lares, novos mundos,
Velados por tênue véu…Templos do Azul Infinito,
Descerrai à humanidade
A glória da Divindade
Nas glórias do vosso amor.^[1]
Jó é um personagem bíblico que personifica o sentido da frase de que estamos tratando. Eis que, com obediência — consentimento da razão^[2] — e resignação — consentimento do coração^[3] —, tudo sofreu: a perda dos filhos, dos bens, dos amigos e da saúde, além do abandono da esposa. Sem revolta, ao final recuperou a saúde, recebeu em dobro o que havia perdido, casou-se novamente, teve dez filhos e viveu longamente, reencontrando a felicidade.
No livro Impermanência e Imortalidade, Carlos Juliano Torres Pastorino, pela psicografia de Divaldo Franco, leva-nos a refletir sobre as consequências da resignação diante da perda do telhado, ou seja, do enfrentamento de lutas e sacrifícios:
O ser adquire sabedoria a expensas de sacrifícios e lutas que não cessam, qual ocorre com a semente que está fadada a viver e, para tanto, deve arrebentar o casulo em que se oculta, vencer os empecilhos de que se reveste, de forma a alcançar a vetustez, a finalidade para a qual se originou.
Vencer limites e aprimorar tendências, superando cada etapa em que transita, avançando sem desfalecimento, constitui a metodologia da autoiluminação, sendo que, passando despercebida aos olhos alheios, não recebe aplauso nem encômios dispensáveis, proporcionando alegrias íntimas que se fazem estímulos incessantes para consegui-la.
À medida que a autoiluminação tem início, o ego esmaece por falta das emulações a que se fixa, embora se duelem nos primeiros tentames, como decorrência do impositivo animal da matéria e a tendência de angelitude que traz em si o Espírito viajor que é da Eternidade.^[4]
Em outro vértice, uma vez que são possíveis múltiplas interpretações, o teto — que impede de ver as estrelas em diversas situações — corresponde às limitações autoimpostas por uma plêiade de razões que, no fundo, equivalem a mecanismos de evasão.
O movimento humano de autossabotagem, disfarçada de empecilhos exteriores, é recorrente. A negligência encontra desculpa na falta de tempo e em escolhas equivocadas, o que leva à dissipação de oportunidades. A ausência de prioridade converte-se, na mente iludida, em tempo insuficiente para os deveres libertadores do looping repetitivo de desperdício. Identificar esses tropismos de afastamento da programação evolutiva é determinante para o sucesso da caminhada.
As estrelas são a meta, mas somente o amor, aí englobado o autoamor, conduz a Humanidade confusa até o patamar de vê-las, ou mesmo ouvi-las, como colocou em versos memoráveis o poeta Olavo Bilac. Afinal, quem ama vê, ouve, saboreia e sente as estrelas.
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.^[5]
Que, pela aquisição e vivência do conhecimento, abramos os olhos para a luz da sabedoria, a fim de que vejamos a constelação que Deus disponibiliza para iluminar o nosso percurso.
Referências
- XAVIER, Francisco Cândido. Ave, Cristo! Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1966. pt. 2, cap. 1.
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019. cap. IX, item 8.
- KARDEC, Allan, op. cit.
- FRANCO, Divaldo Pereira. Impermanência e imortalidade. Pelo Espírito Carlos Torres Pastorino. Rio de Janeiro: FEB, 2004. cap. “Autoiluminação”.
- BILAC, Olavo. Poesias. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1902. Coleção Via Láctea, soneto XIII.
Publicação original: MACHADO, Telma Maria Santos. “Perde-se o teto, mas ganha-se as estrelas”. Jornal Mundo Espírita, Curitiba, out. 2026. Disponível em: https://www.mundoespirita.com.br/?materia=perde-se-o-teto-mas-ganha-se-as-estrelas. Acesso em: 28 out. 2026.