O mundo precisa de mais escândalos positivos

É impossível que não venham escândalos, mas ai daquele por quem vierem! (Jesus)1

No ano de 1937, o pintor espanhol Pablo Picasso pintou a célebre obra Guernica, na qual retrata o massacre da cidade de Guernica promovido pela Alemanha nazista durante a Guerra Civil Espanhola.

Posteriormente, durante a Segunda Guerra Mundial, Picasso teve seu apartamento em Paris invadido por soldados alemães. Eles encontraram sobre uma das mesas os esboços da obra Guernica e o questionamento foi imediato: “Você fez isso?”

E o pintor respondeu: “Eu não, vocês fizeram.”

Pintar Guernica ou ser responsável pela guerra, pelo massacre?

Na obra Cintilação das Estrelas, o benfeitor Camilo, pelas abençoadas mãos do médium Raul Teixeira, ensina:

“Ocorrem na torrente das vidas, escândalos e escândalos. Há-os dedicados à expansão da maldade, do desequilíbrio, do desamor, ao mesmo tempo em que os encontramos por formidáveis incrementadores do amor, demonstrando que se pode, sem dúvida, nas várias frentes de atividade da Terra, viver as lições de Jesus […].2

Há os escândalos negativos, mas também aqueles positivos, que fomentam o bem.

Na França, no final do século XIX, o Caso Dreyfus foi um escândalo político que dividiu o país por muitos anos. Alfred Dreyfus, oficial de artilharia do exército francês, de origem judaica, foi condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo, na costa da Guiana Francesa, em 1894, por alta traição. O processo foi flagrantemente injusto, conduzido a portas fechadas e sem que o acusado pudesse produzir provas em sua defesa. Dreyfus era inocente; a condenação baseava-se em documentos falsos e o verdadeiro traidor era outro. Pesou contra ele o fato de ser judeu, refletindo o sentimento de nacionalismo e xenofobia que invadia a Europa no final do século XIX — o qual se manifestaria tragicamente anos mais tarde durante a Segunda Guerra Mundial.

A família de Dreyfus lutou pela revisão da sentença sem obter resultados imediatos. Em busca de apoio, procuraram o renomado escritor Émile Zola. Indignado após estudar os documentos da família, Zola expôs a injusta condenação em um artigo publicado na primeira página de um jornal sob o marcante título J’accuse (Eu acuso). Tratava-se de uma carta aberta ao Presidente da República e a toda a França, na qual questionava: “Como poderias querer a verdade e a justiça, quando enxovalham a tal ponto todas as tuas virtudes lendárias?”

J’accuse provocou um escândalo que se mostrou positivo. Zola foi julgado e condenado pelo que escreveu, precisando buscar asilo político em Londres. Entretanto, o clamor gerado fez com que o processo fosse reaberto. Em 1906, descobriu-se o verdadeiro traidor; Dreyfus, após cinco anos de prisão, recuperou sua liberdade e foi reintegrado ao exército.

Escândalos e escândalos.

Hippolyte Léon Denizard Rivail, quando, em 1857, adotando o pseudônimo de Allan Kardec, publicou O Livro dos Espíritos, provocou um grande escândalo que abalou em definitivo as bases da filosofia e da religião tradicionais. Kardec e seus seguidores foram severamente perseguidos. Em 1861, cerca de trezentos livros espíritas foram confiscados e queimados em Barcelona por ordem eclesiástica, no episódio que ficou conhecido como o Auto de Fé de Barcelona. Mais escândalos.

No Brasil, Yvonne Pereira, Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco, por meio de suas faculdades mediúnicas, publicaram livros que provocaram escândalos e debates, mas que sobretudo consolaram e modificaram vidas para melhor, embora todos os três tenham sido alvos de incompreensões, críticas e ataques.

O benfeitor Camilo, na mesma mensagem citada anteriormente, propõe:

“Amigo, tu que dizes buscar o Cristo, põe-te, enquanto é hoje, a escandalizar a Terra, como Ele mesmo o fez, por meio da vivência feliz e coerente com o que sabes […].3

Pintar Guernica para denunciar a crueldade; escrever J’accuse em busca de justiça; publicar O Livro dos Espíritos para renovar a consciência da humanidade; psicografar obras consoladoras para clarear os caminhos da alma.

Provoquemos todos os escândalos felizes que estiverem ao nosso alcance. No lar, na Casa Espírita, no trabalho, na escola, por meio de uma vivência feliz e coerente que temos plenas condições de manter. Demonstremos gentileza e ternura em nossos gestos, coragem em nossas decisões morais, doçura e amor em nossas falas e posturas cotidianas (dentro e fora das redes sociais). Assim, juntos, conseguiremos tornar o mundo um lugar muito mais feliz para se viver.


Referências

  1. BÍBLIA. N. T. Lucas. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Bíblia Almeida Corrigida Fiel. São Paulo: Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, 1994. cap. 17, vers. 1. ↩︎
  2. TEIXEIRA, J. Raul. Cintilação das estrelas. Pelo Espírito Camilo. Niterói: Fráter, 1992. cap. 24. ↩︎
  3. TEIXEIRA, op. cit. ↩︎

Este artigo foi originalmente publicado no Jornal Mundo Espírita, Curitiba, n. 1703, ano 94, jun. 2026.

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Marcelo Anátocles Ferreira

Desembargador e Assessor Especial da Diretoria Doutrinária da ABRAME.