A frase é atribuída a Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.), filósofo, escritor e político romano. Dentre outros temas, escreveu sobre ética, lógica e natureza.
A Doutrina Espírita ensina a substituir a palavra destino por programação espiritual, tão bem explicada na série do Espírito André Luiz, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, na coleção A vida no Mundo Espiritual, na qual se aprende que, quanto mais evoluído o Espírito, maior participação terá na programação elaborada para cada retorno à carne.
A principal finalidade das reencarnações é a evolução espiritual. Mas nem sempre compromissos e tarefas são cumpridos, o que pode ocasionar o estacionamento evolutivo provisório (caso haja completa rebeldia do reencarnado) ou uma marcha evolutiva mais lenta, na hipótese de se desincumbir parcialmente do que lhe compete.
Isso posto, pode-se entender a frase citada da seguinte forma: aqueles que são guiados pela obediência (consentimento da razão)¹ e pela resignação (consentimento do coração)1 sabem contornar os percalços a enfrentar, que são decorrentes das próprias ações e omissões.
A obediência e a resignação trazem a serenidade que não teme os desafios da jornada evolutiva, porque há a certeza de que Deus criou todos para a perfeição e de que os percalços do caminho não são impeditivos ao avanço da jornada, pois sempre há vias alternativas que levam à transcendência. Afinal, segundo as sábias palavras de José Herculano Pires:
A história arrasta os homens em suas ondas, mas os bons nadadores podem não apenas salvar-se, como também salvar os outros. E dessa dinâmica do eu-outros resulta o impulso histórico da transcendência humana, que arrancou o homem primitivo da era tribal e levará o homem atual a um mundo mais perfeito e melhor.2
Por outro lado, a insurreição e a revolta com os mecanismos de reeducação não livrarão o Espírito rebelde dos ditames da Lei de Ação e Reação, até o último ceitil, conforme advertiu Jesus.
O destino de todos os seres humanos é a felicidade, e, para o seu alcance, são múltiplas e variadas as oportunidades que Deus concede, sem preferências, privilégios, discriminações. O que fazer com essas oportunidades ditará o ritmo com que tal destino se tornará uma realidade.
Na frase, Sêneca afirma que o destino arrasta aquele que não quer, o que faz lembrar que há Espíritos rebeldes, os quais, para o próprio bem, são arrastados para reencarnações compulsórias, porque a Lei do Progresso, Lei Divina constante no Capítulo VIII da Parte Terceira de O Livro dos Espíritos, é inderrogável e irrevogável, e a questão 781 é bastante elucidativa quanto à impossibilidade de se deter a marcha do progresso:
- Tem o homem o poder de paralisar a marcha do progresso? “Não, mas tem, às vezes, o de embaraçá-la.”
- a) Que se deve pensar dos que tentam deter a marcha do progresso e fazer que a Humanidade retrograde? “Pobres seres, que Deus castigará! Serão levados de roldão pela torrente que procuram deter.”
Sendo o progresso uma condição da natureza humana, não está no poder do homem opor-se-lhe. É uma força viva, cuja ação pode ser retardada, porém não anulada, por leis humanas más. Quando estas se tornam incompatíveis com ele, despedaça-as juntamente com os que se esforcem por mantê-las. […]3
Léon Denis tem uma bela metáfora sobre esse tema, ao discorrer sobre a liberdade humana:
O círculo dentro do qual se exerce a vontade do homem é, de mais a mais, excessivamente restrito e não pode, em caso algum, impedir a ação divina, cujos efeitos se desenrolam na imensidade sem limites. O fraco inseto, perdido num canto do jardim, não pode, desarranjando os poucos átomos ao seu alcance, lançar a perturbação na harmonia do conjunto e pôr obstáculos à obra do Divino Jardineiro.4
Jesus andou sobre as águas e exortou Pedro a fazer o mesmo. No entanto, Pedro assustou-se com o vento, começou a afundar e pediu socorro a Jesus, que o segurou pela mão e observou que isso ocorreu por conta da pouca fé do Apóstolo.
Das muitas interpretações possíveis dessa belíssima passagem, pode-se concluir que o convite do Mestre é para que O sigamos sem temer as tempestades, cientes de que não faltará a Sua proteção e, mesmo quando a dúvida vence a certeza do amor de Deus, Ele ampara e traz o de pouca fé – que somos quase todos nós – para a superfície.
Artigo originalmente publicado no Jornal Mundo Espírita.
Referências:
- DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Rio de Janeiro: FEB, 2008. pt. 3, cap. XXII. ↩︎
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2019. cap. IX, item 8. ↩︎
- PIRES, J. Herculano. O ser e a serenidade: ensaio de ontologia existencial. São Paulo: Paideia, 2023. Edição Kindle. p. 39. ↩︎
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1987. pt. 3, cap. VIII, q. 781 e 781a. ↩︎