O agora e a eternidade

Aprendemos em O Livro dos Espíritos que somos Espíritos criados simples e ignorantes1 e que, em nossas múltiplas vidas, conseguimos evoluir através das experiências pelas quais passamos em cada uma delas.

Nascemos e renascemos muitas vezes, para que possamos aprender e fixar o aprendizado.

Nessa dinâmica evolutiva, aplicam-se várias leis de Deus. Dentre elas, as de progresso, de sociedade e de justiça.

A Lei de Progresso nos impulsiona, a Lei de Sociedade nos traz as experiências e a Lei de Justiça nos ensina.

Segundo os benfeitores da Humanidade: “O homem se desenvolve por si mesmo, naturalmente. Mas, nem todos progridem ao mesmo tempo e da mesma maneira; é então que os mais adiantados ajudam os outros a progredir, pelo contato social.”2

Também nos afirmam que: “Há o progresso regular e lento, que resulta da força das coisas.”3

Dessa forma, utilizando-se cada Espírito do seu livre-arbítrio, através do contato social, acontece a marcha evolutiva.

A Lei de Justiça, nesse processo, funciona com a pedagogia do retorno, ou seja, cada um de nós recebe de volta, positiva ou negativamente, o que semeou. Na medida que nossa imperfeição causa sofrimento e que nossos acertos causam satisfação, o natural é que as escolhas passem a ser as do acerto.

Castro Alves, pelas abençoadas mãos de Francisco Cândido Xavier, nos ensina em versos:

Há mistérios peregrinos
No mistério dos destinos
Que nos mandam renascer:
Da luz do Criador nascemos,
Múltiplas vidas vivemos,
Para a mesma luz volver
[…]
É a luta eterna e bendita,
Em que o Espírito se agita
Na trama da evolução;
Oficina onde a alma presa
Forja a luz, forja a grandeza
Da sublime perfeição.4

Mas o grande drama da evolução para a maioria de nós – que vivemos em um planeta como a Terra, um mundo de provas e expiações – é a questão do tempo.

Vemos Espíritos que viveram ou ainda vivem em nosso mundo com um grande proveito das horas, enquanto a maioria de nós costuma repetir experiências, sem muito proveito, evoluindo muito pouco a cada encarnação.

A benfeitora Joanna de Ângelis traduziu pela psicografia de Divaldo Pereira Franco:

“Toda vez que Jesus convidava alguém a segui-lO, enunciava: ‘Agora!’ Agora é o momento sublime de aplicares a herança divina que possuis em benefício da ordem universal.”5

Jesus, em Seus convites, ensinava a importância da decisão pelo agora, por este momento, em nosso próprio benefício.

No Evangelho, vamos colher a expressão Vida Eterna como um dom, uma conquista daqueles que seguem Jesus: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”6

Vejamos o que nos ensina Paulo de Tarso: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor.”7

O benfeitor Emmanuel comenta essa passagem afirmando que: “Muitos aprendizes estimam as longas repetições, entretanto, pelo que temos aprendido, somos obrigados a considerar que vale mais um dia bem vivido com o Senhor que cem anos de rebeldia em nossas criações inferiores.”8

Um dia bem vivido com o Senhor! Aceitar o convite agora, imediatamente.

Mas ainda é necessária uma reflexão sobre o tempo e a eternidade.

Sabemos que, uma vez criados por Deus, não teremos fim, ou seja, já temos a eternidade da vida como destino. A pergunta é: Temos a Vida Eterna?

Aí vamos precisar um pouco de Filosofia e também de poesia.

No livro Sabedoria do Evangelho, aprendemos que o filósofo Aristóteles afirmou que o que é eterno é o que está fora do tempo.

Conclui Pastorino: “Vê-se, portanto, que os seres eternos, enquanto seres eternos, não estão no tempo, porque o tempo não os envolve, nem mede a existência deles…”9

Em canção popular, de cunho lírico e filosófico, o compositor inspirado escreveu:

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo, tempo, tempo, tempo
Não serei, nem terás sido
Tempo, tempo, tempo, tempo.10

Esta é a proposta de Jesus: aceitarmos o amor, a decisão pelo serviço, a modificação interior, a necessária guinada espiritual, na qual incluiremos benevolência, indulgência e perdão agora, com um dia bem vivido com o Senhor, adquirindo a Vida Eterna e mudando, em definitivo, a nossa evolução espiritual.


Referências

  1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2013. pt. 2, cap. 1, q. 115. ↩︎
  2. Op. cit. pt. 3, cap. VIII, q. 779. ↩︎
  3. Op. cit. pt. 3, cap. VIII, q. 783. ↩︎
  4. XAVIER, Francisco Cândido. Parnaso de Além-Túmulo. Por Espíritos diversos. Rio de Janeiro: FEB, 1983. Marchemos! ↩︎
  5. FRANCO, Divaldo Pereira. Mundo regenerado. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2023. cap. 25. ↩︎
  6. BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 3, vers. 16. ↩︎
  7. Op. cit. Rom. cap. 6, vers. 23. ↩︎
  8. XAVIER, Francisco Cândido. Vinha de luz. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2005. cap. 122. ↩︎
  9. PASTORINO, Carlos Torres. Sabedoria do Evangelho. Rio de Janeiro: Sabedoria, 1965. v. 2, p. 15. ↩︎
  10. Oração ao Tempo, composta por Caetano Veloso. Álbum Cinema Transcendental (1979). ↩︎

Publicação Original:
FERREIRA, Marcelo Anátocles. O agora e a eternidade. Jornal Mundo Espírita, Curitiba, abr. 2026. Disponível em: https://www.mundoespirita.com.br/?materia=o-agora-e-a-eternidade.

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Marcelo Anátocles Ferreira

Desembargador e Assessor Especial da Diretoria Doutrinária da ABRAME.