Não há Milagres na Evolução, há Leis

A frase que intitula este artigo é de um grande filósofo do Espiritismo, José Herculano Pires, e consta no seu livro Evolução Espiritual do Homem.

A Doutrina Espírita comprovou, por meio de seu corpo doutrinário robusto e vasto, que os milagres são regidos por leis naturais a que teremos acesso à medida que evoluirmos espiritualmente, ou seja, que o sobrenatural é apenas o natural ainda não conhecido1, e o processo evolutivo, em suas diversas nuances, paulatinamente, faz-nos compreender fatos antes tidos como inexplicáveis. A explicação de Herculano Pires define bem a questão:

O Espiritismo nos mostra e prova, desde as pesquisas de Kardec até as atuais, que antes de nos libertarmos do planeta temos de passar pelos estágios progressivos da própria esfera espiritual da Terra. Não devemos, pois, olhar com muito anseio e pretensão para as estrelas distantes, esquecidos de nossas contas finais com a própria Terra. Para pisar no primeiro degrau dos mundos superiores, precisamos antes provar as escadinhas internas da nossa morada atual. Não há milagres na evolução, há leis.2

Anunciada por Jesus no Evangelho de João, capítulo 14, a pluralidade dos mundos habitados está muito bem explicitada no capítulo III, item 4 de O Evangelho segundo o Espiritismo:

Embora se não possa fazer, dos diversos mundos, uma classificação absoluta, pode-se contudo, em virtude do estado em que se acham e da destinação que trazem, tomando por base os matizes mais salientes, dividi-los, de modo geral, como segue: mundos primitivos, destinados às primeiras encarnações da alma humana; mundos de expiação e provas, onde domina o mal; mundos de regeneração, nos quais as almas que ainda têm o que expiar haurem novas forças, repousando das fadigas da luta; mundos ditosos, onde o bem sobrepuja o mal; mundos celestes ou divinos, habitações de Espíritos depurados, onde exclusivamente reina o bem3

Quanto ao aspecto biológico, também é verificado o Plano Divino atuando na evolução dos seres vivos. Kardec, inclusive, conforme destacou Hebe Laghi de Souza, antes mesmo da teoria da evolução molecular, que surgiu somente no início do século XX, do biólogo e bioquímico russo Aleksandr Ivanovich Oparin (1894-1980) e do geneticista inglês John Burdon Sanderson Haldane (1892-1964), já acentuava nas questões 43, 44 e 45 de O Livro dos Espíritos, assim agrupadas pela citada autora:

No começo, tudo era caos; os elementos estavam em confusão. Pouco a pouco, cada coisa tomou o seu lugar; então, apareceram os seres vivos apropriados ao estado do globo. […] A Terra continha os germes que aguardavam o momento favorável para se desenvolverem. Os princípios orgânicos se congregaram desde que cessou a força que os mantinha afastados e eles formaram os germes de todos os seres vivos. Os germes estiveram em estado latente e inerte, como a crisálida e as sementes das plantas, até o momento propício para a eclosão de cada espécie; então, os seres de cada espécie se reuniram e se multiplicaram. Eles estavam, por assim dizer, em estado de fluido pelo espaço, entre os espíritos, ou em outros planetas, esperando a criação da Terra para começar uma nova existência sobre um novo globo.4

Essa autora, que tão bem se valeu dos seus conhecimentos na área da Biologia para demonstrar o elo entre a Doutrina Espírita e a Ciência Acadêmica, ainda pondera sobre a Teoria do cientista Oparin e as afirmações constantes em O Livro dos Espíritos, aduzindo que:

Se compararmos esses dizeres com o que conhecemos sobre a origem da vida, como Oparin mostrou, e um pouco sobre o que sabemos da organização do sistema solar, veremos que este pequeno trecho reflete bem o que Oparin deixou em sua teoria. No espaço, enquanto a Terra se remodelava, em sua atmosfera os elementos que constituíam os germes da vida formavam compostos que seriam responsáveis pelo seu aparecimento.

Depois de explicar as condições da atmosfera primitiva e a formação de compostos químicos até que surgisse a vida, Hebe Laghi refere-se à espera do Espírito: No espaço, os espíritos esperavam pela ocasião oportuna de aportarem no planeta e nele habitarem na matéria orgânica. Ou seja, mais uma reafirmação do título deste artigo, mesmo porque o Projeto Evolutivo material e espiritual é de Deus, Inteligência Suprema, conforme bem observado pela magnífica cientista:

E é este conhecimento que me faz perceber que toda a criação resulta de grande projeto, de um projeto infinito em sabedoria e inteligência. Um projeto que diante dos meus olhos delineia um panorama maravilhoso, onde milhares de espíritos, ao redor da Terra, colaboravam na organização das moléculas até o momento de iniciarem sua jornada no plano terreno.

A Providência Divina, que tudo comanda, por ser perfeita, não precisa desfazer nem modificar as próprias Leis.

Referências

  1. PIRES, José Herculano. Introdução à Filosofia Espírita. São Paulo: Paideia, 2015. cap. II, item 3. ↩︎
  2. ________. Evolução espiritual do homem. São Paulo: Paideia, 2005. cap. As tentativas de fuga para o espaço sideral. ↩︎
  3. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2013. cap. III, item 4. ↩︎
  4. SOUZA, Hebe Laghi de. Do pó das estrelas ao homem. Campinas: Allan Kardec, 2013. ↩︎

Publicado originalmente no Jornal Opção, neste link.

Photo of author

Telma Mª S. Machado

Diretora de Comunicação e Delegada da ABRAME/SE