Esperança firme

Consta no livro O crucifixo de São Damião 1 que, quando orava perante a imagem de Jesus na Igreja de São Damião, em ruínas, São Francisco de Assis pedia a Deus fé verdadeira, esperança firme, caridade perfeita e humildade profunda.

Esperança firme é uma virtude muito importante para a nossa caminhada na Terra, que ainda apresenta tantos quadros complexos, de difícil compreensão.

No Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa, Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira define a esperança como ato de esperar o que se apetece; confiança em o obter; a segunda das três virtudes teologais, simbolizada por uma âncora.2 Lembramos que no famoso trecho contido na primeira epístola de Paulo aos Coríntios, quando a caridade é apresentada como a virtude cristã suprema, a fé e a esperança 3 são mencionadas como muito próximas.

Allan Kardec, quando pergunta aos Benfeitores da humanidade sobre um modelo de felicidade que seja comum a todos os homens, obtém uma resposta muito clara: no campo material, a posse do necessário e, no campo moral, consciência tranquila e a fé no futuro. 4 E essa fé no futuro – cabe ressaltar – reúne as duas virtudes essenciais: fé e esperança.

Assim, vamos entendendo essa virtude como uma importante conquista para a nossa evolução, a espera por coisas melhores, por um melhor futuro, por um mundo mais feliz.

O poeta Vicente de Carvalho, no soneto Velho Tema, afirma:

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda. 5

Assim, a esperança faz parte da vida tanto no que se refere aos planos materiais quanto no que se refere aos espirituais.

Temos que cultivá-la em ambos os campos. No da vida terrena, sob o aspecto material, é importante termos planos e metas alcançáveis e felizes que possam nos impulsionar positivamente na caminhada do dia a dia.

Vale voltar ao soneto de Vicente de Carvalho, que ouvi pela primeira vez na oratória de Raul Teixeira:

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos.
Existe sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos. 6

Assim, devemos planejar, estabelecer metas alcançáveis e não adiar a felicidade tão sonhada.

Raul Teixeira, comentando os versos, lembrava que é costume afirmarmos que seremos felizes ao nos casarmos e, quando nos casamos, pomos a felicidade mais adiante, quando tivermos filhos. Quando eles nascem, adiamos a felicidade para a formatura deles e agimos assim sucessivamente. Ou ainda, planejamos ter nossa casa como meta feliz, depois, o carro e, em seguida, um modelo mais novo, adiando sempre a felicidade, nunca a pomos onde nós estamos.

Importante a advertência do poeta: é preciso, em cada conquista alcançada, esperada, almejada sentir-se feliz e grato, renovando a esperança em planos novos e novas metas. Devemos sentir e usufruir dos momentos de felicidade para que fiquem marcados em nossa memória.

No conto Felicidade clandestina, 7 Clarice Lispector narra o quanto uma jovem que desejava o livro Reinações de Narizinho, que não podia comprar, fica feliz e usufrui dos momentos de felicidade quando obtém, inesperadamente, mesmo que por empréstimo, o referido livro. A jovem o abraça e retarda a sua leitura para continuar sentindo aquela clandestina felicidade.

Sentir-se feliz nas conquistas, por mais simples que sejam; guardar com carinho esse sentimento de felicidade, que deve ser acalentado, é muito importante.

No campo moral, espiritual, importa muito o cultivo da esperança. A esperança de que o problema será resolvido, a dor cessará, o conflito terá fim, o resgate espiritual se encerrará e as oportunidades serão renovadas no novo amanhecer.

No excelente livro Escritos da casa morta, 8 Dostoiévski, narrando experiências no presídio de Omsk, na Sibéria, afirma que todos os presos nutriam, ainda que secretamente, a esperança de liberdade e o fim dos trabalhos forçados.

Para a construção dessa esperança firme que o poeta Zé Rodrix, na música Casa no campo, chama de “esperança de óculos”, aquela que podemos ver quase que concretamente, temos um excelente material em nossas mãos: a Doutrina Espírita.

O Espiritismo nos traz uma crença racional com argumentos sólidos, que podemos analisar com a razão. A crença em um Deus soberanamente justo e bom, Inteligência Suprema e Causa Primária de todas as coisas. Nesse Deus que podemos sentir e entender pela Criação, pelo universo infinito e pelas belíssimas leis de harmonia. Sentir-se filho desse Deus nos faz mergulhar num mar seguro de esperança.

A certeza da imortalidade da alma, através da fala dos mortos, pela mediunidade, é uma ponte permanentemente aberta, possibilitando receber as belezas da vida depois da vida terrena. Saber que continuaremos vivos após o fim do corpo físico e que os que partiram antes de nós continuam vibrando e amando fortalece a nossa esperança.

A ideia da reencarnação, que nos ensina sobre as vidas anteriores e posteriores com explicação lógica para todos os problemas que enfrentamos, apresenta um quadro de perfeita justiça com cada um recebendo aquilo que é seu. O problema da dor se explica pela colheita do ontem e pelos aprendizados que ela proporciona para o amanhã. E há a certeza da existência dos muitos mundos habitados, menos ou mais evoluídos que o nosso planeta. Tudo isso comprova racionalmente o amor de Deus, a causa justa das nossas aflições e nosso destino feliz e bom, robustecendo a esperança em dias melhores.

Fortalecidos com as verdades espíritas, temos condições de construir a esperança firme solicitada na prece franciscana.

A poetisa Maria Dolores, pelas mãos de Chico Xavier, nos fala sobre esperança:

Espera, que a esperança é a luz do mundo –
Oculta maravilha –
Que em toda parte, se revela e brilha
Para a glória do amor.
A noite espera o dia, a flor o fruto,
O espinho a rosa, o mármore o buril… 9

A benfeitora Joanna de Ângelis, pelas mãos de Divaldo Franco, nos pede para difundirmos a esperança em dias melhores. Afirma que nunca houve tanta necessidade da verde palma quanto nestes momentos. 10

Vamos, então, cultivar a esperança confiando em dias melhores. No campo material, planejando, esperando e sentindo a felicidade do que se alcança, de cada passo dado na direção de nossos objetivos.

No campo moral, fortalecendo nossa fé espírita com leituras e estudos para termos condições de ter a esperança firme, aquela construída com o próprio esforço.

Nunca é demais lembrar que, após a belíssima prece na igrejinha em ruínas de São Damião, em frente ao crucifixo, São Francisco ouviu o convite inesquecível e marcante: “Vai e repara a minha casa” ou, em outras traduções, “Reforma a minha igreja”.

Fortalecidos com uma firme esperança, com a alma luarizada, abramos os ouvidos, a alma e o coração para a grande proposta de trabalho no bem apresentada e vivida por Jesus e pelo pobrezinho de Assis na construção de um mundo mais feliz.


Publicação Original: FERREIRA, Marcelo Castro Anátocles da Silva. Esperança firme. Jornal Mundo Espírita, Curitiba, set. 2026. Disponível em: https://www.mundoespirita.com.br/?materia=esperanca-firme.

Referências:

  1. BALDYGA, Sergiusz M. OFM. O crucifixo de São Damião. Braga: Editorial Franciscana, 2002. ↩︎
  2. FERREIRA, Aurélio Buarque de Hollanda. Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1961. ↩︎
  3. BÍBLIA. N. T. I Coríntios. Português. O Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 13, v. 13. ↩︎
  4. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2013. pt. 4, cap. I, q. 922. ↩︎
  5. CARVALHO, Vicente de. Poemas e canções. São Paulo: Saraiva, 1965. Velho tema. ↩︎
  6. CARVALHO, Vicente de, op. cit. ↩︎
  7. LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1988. cap. 1. ↩︎
  8. DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Escritos da casa morta. São Paulo: Editora 34, 2020. p. 306. ↩︎
  9. XAVIER, Francisco Cândido; DOLORES, Maria (Espírito). Antologia da Espiritualidade. Rio de Janeiro: FEB, 1976. cap. Cantiga da esperança. ↩︎
  10. FRANCO, Divaldo Pereira; ÂNGELIS, Joanna de (Espírito). Vida feliz. Salvador: LEAL, 1992. cap. XXXII. ↩︎
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Marcelo Anátocles Ferreira

Desembargador e Assessor Especial da Diretoria Doutrinária da ABRAME.