É impossível um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe

A frase é atribuída ao filósofo estoico Epicteto (50 a 138 d.C.), um dos representantes do que os estudiosos da filosofia denominam de Nova Estoá.

Não há necessidade de profundo mergulho na interpretação da frase para assimilar que se refere à humildade e à constatação de que o conhecimento é inesgotável, portanto, deve ser contínuo e incansável.

Antes, porém, de serem abordados alguns desdobramentos dessa sábia colocação, convém uma rápida viagem à Antiguidade para situar o referido filósofo e a escola filosófica a que pertenceu.

Lecionam os professores Giovanni Reale e Dario Antiseri que a filosofia estoica, relacionada à Escola de Estoá (termo que significa pórtico, lugar em que os filósofos se encontravam),1 formou-se pela ação de três filósofos principalmente.

O primeiro deles foi Zenão de Cício (que chegou a Atenas em 312/311 a.C.); o segundo foi Cleantes de Assos (que dirigiu a Escola entre 262 e 232 aproximadamente); e o terceiro, ao qual se deve a sistematização definitiva da doutrina, foi Crisipo de Sôli (que foi escolarca de 232 até quase o fim do século).

Os estudiosos dividem a história da Estoá em três períodos:

  • a Antiga Estoá de Zenão, Cleantes e Crisipo;
  • a Média Estoá de Panécio e Possidônio;
  • a Nova Estoá de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio.

Ainda enfatizam que o princípio da filosofia de Epicteto consiste na divisão das coisas em duas classes:

  • aquelas que estão em nosso poder (ou seja, opiniões, desejos, impulsos e repulsões);
  • aquelas que não estão em nosso poder (ou seja, todas as coisas que não são atividades nossas, como corpo, parentes, haveres, reputação e semelhantes).

O bem e o mal residem exclusivamente na classe das coisas que estão em nosso poder, precisamente porque estas dependem de nossa vontade, e não na outra classe, porque as coisas que não estão em nosso poder não dependem de nossa vontade.2

Há autores que evidenciam alguns pontos de contato entre o Estoicismo, que utiliza principalmente as virtudes da prudência (phronesis), da justiça (dikaiosyne), da temperança (sophrosyne) e da coragem (andreia), e o Cristianismo, no entanto, há também marcantes diferenças, uma delas muito bem acentuada por José Herculano Pires:

“Com os estoicos surgiu o panteísmo que contaminaria também o neoplatonismo. Deus era o mundo, o mundo era Deus. Natural e sobrenatural fundiam-se confusamente e Tales de Mileto afirmava que o mundo estava cheio de deuses. A intuição grega traçava, nos quadros de sua cultura nascente, o esquema do futuro.”3

Ora, é sabido que praticamente todas as escolas filosóficas provocam questionamentos e refutações em maior ou menor grau, e isso talvez seja um dos maiores encantos da Filosofia, que está sempre em atividade dialética. No entanto, também em boa parte delas são encontradas inúmeras pérolas, muitas vezes sem demandar grande esforço hermenêutico.

Essas quatro virtudes são realçadas e muitas vezes ressignificadas nos ensinamentos de Jesus.

  • Sobre a prudência: ser simples como a pomba e prudente como a serpente. Simplicidade e humildade são inseparáveis, e no Sermão da Montanha, quando Jesus pronuncia que são Bem-aventurados os pobres de espírito,4 pode-se entender como os que têm a humildade de assimilar que o aprendizado é indispensável para a evolução.
  • Sobre a justiça: quando o Cristo ressalta que, se a nossa justiça não for maior do que a dos escribas e fariseus,5 é lícito ponderar que devemos interpretar a lei da forma que mais realce valores como ética, solidariedade e honestidade.
  • Sobre a temperança: o inesquecível Rabi deu o exemplo máximo dessa qualidade ao pedir ao Pai que perdoasse os que O maltrataram,6 alegando que eles não sabiam o que faziam. Pode-se compreender aqui que Jesus ensinou que, na fase da ignorância espiritual, o ser comete erros imensuráveis, mas que, diante da Lei de Causa e Efeito, temperada com a misericórdia divina, todos poderão arrepender-se, resgatar e reparar as más ações.
  • Sobre a coragem: toda a vida de Jesus é uma parábola viva de lídima coragem. No capítulo 14 do Evangelho segundo João, Ele ainda conclama a não turvarmos o nosso coração,7 que creiamos em Deus e nEle, uma conclamação à fortaleza espiritual.

Com todo o leque de luz advindo do Evangelho, que é tão bem explicado pela Doutrina Espírita, deve-se ter como premissa que a evolução é constante e, portanto, o aprendizado é contínuo, porque a dinâmica divina é marcharmos para a luz.


Referências

  1. REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: filosofia pagã antiga. São Paulo: Paulus, 2003. v. 1, p. 279. ↩︎
  2. Op. cit. v. 1, p. 329. ↩︎
  3. PIRES, Herculano. Concepção existencial de Deus. São Paulo: Paideia, 2003. cap. Autogênese de Deus. ↩︎
  4. BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 5, vers. 3. ↩︎
  5. Op. cit. cap. 5, vers. 20. ↩︎
  6. Op. cit. Lucas. cap. 23, vers. 34. ↩︎
  7. Op. cit. João. cap. 14, vers. 1. ↩︎

Artigo publicado originalmente no Jornal Mundo Espírita, Curitiba, abr. 2026.

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Telma Mª S. Machado

Vice-Presidente da Associação Brasileira dos Magistrados Espíritas (ABRAME), membro da Academia de Letras Espíritas do Estado de Sergipe, poeta, escritora.