Numa recostada, li o livro “Momentos de Reflexão” de Nelci Silvério de Oliveira, publicado pela Editora do Conhecimento e me lembrei de um verso do poeta da Liberdade: “Dois infinitos ali se estreitam num abraço insano: azuis, dourados, plácidos, sublimes… Qual dos dois é o céu, qual o oceano?”
No vocativo inicial da obra, Nelci transcreve Huberto Rohden com poesia dimensional sobre a condição humana entre dois infinitos, muito além da perspectiva dos olhos físicos:
“Nós, meu amigo, somos de ontem – e amanhã deixaremos de ser…
E, quando a humanidade deixar o cenário do universo, continuará o drama da terra, e do cosmos – sem nós…
Sem nós – como milênios antes, como se nunca tivéssemos existido…
Somos um pequenino parêntese – entre dois infinitos…
Somos um subitâneo lampejo – na noite eterna…
Somos um grito apenas – no silêncio imenso do deserto cósmico…
Somos uma microscópica ilha de vida – no oceano da morte universal…
Somos um Nada…
E, no entanto, esse Nada do homem é grande – porque iluminado pelo Tudo da Divindade…Divindade…
A luz do seu poder, alvo da sua sabedoria, objeto do seu amor – sou mais que todo o resto do mundo…
De ontem, apenas hóspede na terra – sou eterno no pensamento de Deus…
Partirei amanhã para longe da terra – e serei imortal no seio de Deus…”
A imagem rohdeniana do ser humano como “um pequenino parêntese entre dois infinitos” oferece a chave para compreender a reflexão filosófico-espiritual recolhida e aprofundada por Nelci Silvério de Oliveira. Logo nas primeiras linhas, a consciência humana é colocada diante de sua própria fragilidade: um lampejo na noite eterna, uma pequena ilha de vida perdida no vasto oceano do cosmos. Essa percepção não pretende reduzir o valor da existência, mas situá-la. O ser humano, visto apenas sob o prisma material, é um instante que passa; mas, iluminado pelo Mistério que o transcende, revela grandeza e sentido.
A tensão entre o nada e o tudo estrutura toda a mensagem. Se, de um lado, somos efêmeros, de outro participamos de uma realidade maior que nos antecede e nos sucede. Rohden chama essa realidade de Divindade; Oliveira, fiel ao espírito universalista, reconhece nela a Fonte que habita o íntimo da consciência e que não se limita a formas religiosas específicas. A espiritualidade que ambos propõem não se apoia em dogmas, mas na experiência interior: é um convite à escuta do “Cristo Interno”, expressão simbólica da centelha divina presente em cada ser humano.
Ao afirmar que “sou eterno no pensamento de Deus”, o texto rompe com a ideia de uma existência reduzida ao corpo. A eternidade aqui não é entendida como duração temporal sem fim, mas como pertencimento ontológico. Se, fisicamente, somos passageiros, espiritualmente pertencemos a um plano que não está sujeito à erosão do tempo. Essa percepção confere à vida um tom de responsabilidade e reverência. O que fazemos neste parêntese finito ecoa para além dele; o modo como conduzimos nossa consciência deixa marca na nossa própria eternidade.
A efemeridade expressa no início do texto — a humanidade que um dia desaparecerá, o cosmos que seguirá seu curso indiferente — não conduz ao desespero existencial, mas à consciência. Rohden não se detém na pequenez do ser; destaca a grandeza que nasce justamente do reconhecimento da Fonte. A vida humana, vista superficialmente, parece um grito no silêncio cósmico; vista em profundidade, é um gesto da própria Divindade que se expressa na matéria e na consciência. Essa é a chave da metafísica rohdeniana e do comentário de Oliveira.
A espiritualidade universalista que emerge dessa leitura supera fronteiras religiosas e filosóficas. Não se trata de negar as tradições, mas de perceber que, sob todas elas, há um núcleo comum: a busca da união entre a criatura e o Criador. Oliveira vê nesse núcleo uma ética de interioridade. O divino não é propriedade de instituições; é uma presença silenciosa que se revela no coração, na consciência moral, na sede de verdade, beleza e justiça. A viagem espiritual, portanto, não exige intermediários: exige clareza, humildade e abertura.
O homem é pequeno apenas quando se mede por parâmetros externos — riqueza, poder, prestígio. Quando se compreende como parte da vida universal, reencontra a grandeza que lhe é própria. Por isso Rohden afirma que “o Nada do homem é grande porque iluminado pelo Tudo da Divindade”. A grandeza não está no ego, mas no reflexo da Luz que nele habita. E é essa luz que confere sentido à existência e orienta a ação no mundo. O reconhecimento dessa verdade transforma a maneira de viver: as pequenas disputas perdem importância; o que ganha relevo é o aperfeiçoamento interior, o cultivo da compaixão e da lucidez.
Se somos, como diz o texto, um “parêntese entre dois infinitos”, então cada instante torna-se sagrado. A brevidade da vida não diminui seu valor; intensifica-o. Nada nos pertence permanentemente, e é justamente por isso que tudo deve ser vivido com consciência. Ao mesmo tempo, saber-se eterno no pensamento de Deus impede que o medo da morte nos paralise. A vida é passagem, mas é também retorno: retorno ao seio da Fonte, ao centro da realidade espiritual, ao lugar onde o humano reencontra plenamente o divino.
O pensamento de Rohden, recolhido em Momentos de Reflexão, não oferece fórmulas ou dogmas. Oferece, sim, uma visão integrada da condição humana, na qual a finitude e a transcendência se iluminam mutuamente. Somos frágeis, sim; mas também somos portadores de uma luz que nenhum limite pode apagar. Entre dois infinitos, o ser humano caminha, aprende, sofre, ama e desperta. E é nesse despertar — silencioso, interior, profundo — que encontra o sentido mais alto de sua própria existência.