Sentido e Sofrimento do ser Humano

A célebre frase “Quem tem um porquê suporta quase qualquer como”, associada ao pensamento de Friedrich Nietzsche e posteriormente retomada por Viktor Frankl, expressa uma das ideias mais profundas sobre a condição humana: o sofrimento torna-se suportável quando a vida possui sentido.

A experiência histórica e pessoal demonstra que o ser humano não vive apenas de conforto material. Ele vive, sobretudo, de significado. Quando existe um motivo para viver, os obstáculos podem ser enfrentados; quando esse motivo desaparece, até mesmo uma vida confortável pode parecer vazia.

Essa reflexão foi aprofundada por Viktor Frankl a partir de sua própria experiência como prisioneiro durante o Holocausto. Observando o comportamento dos detentos, ele percebeu que muitos sucumbiam não apenas pela fome ou pela violência, mas pela perda total de sentido. Aqueles que conseguiam resistir psicologicamente eram geralmente os que mantinham algum propósito: a família, concluir um trabalho intelectual ou sobreviver para testemunhar o que haviam vivido. Frankl concluiu que a motivação fundamental do ser humano não é o prazer – como sugeria Sigmund Freud – nem o poder – como sustentava em parte Friedrich Nietzsche, mas a busca de sentido. Essa percepção deu origem à logoterapia, uma psicologia centrada na descoberta do significado da vida.

Na vida cotidiana essa verdade aparece com clareza. Uma mãe que trabalha intensamente para sustentar os filhos suporta cansaço e dificuldades porque possui um porquê claro. O mesmo ocorre com o estudante que enfrenta anos de estudo e sacrifícios para realizar uma vocação profissional. Os desafios permanecem, mas tornam-se suportáveis quando estão ligados a um objetivo maior.

A psicologia de Carl Gustav Jung acrescenta outra dimensão a essa reflexão. Para Jung, o ser humano participa de um coletivo, um patrimônio simbólico compartilhado pela humanidade. No centro da psique encontra-se o Self, princípio que orienta o processo de individuação, isto é, a realização plena da personalidade. Quando a pessoa entra em contato com esse núcleo interior, passa a perceber uma direção mais profunda para a própria vida.

Diversos materialistas ofereceram leituras distintas sobre a motivação humana. Karl Marx destacou o peso das estruturas sociais e econômicas na formação das condições de vida. Já Albert Camus descreveu o sentimento do absurdo diante de um universo aparentemente sem sentido. Ainda assim, mesmo em sua filosofia, o homem continua lutando e afirmando a própria dignidade, o que revela a necessidade humana de atribuir valor à existência.

Na tradição cristã, essa busca pelo sentido é compreendida como abertura ao transcendente. Santo Agostinho afirmava que o coração humano permanece inquieto enquanto não encontra seu repouso em Deus. De modo semelhante, São Tomás de Aquino entendia que o ser humano tende naturalmente ao bem supremo. No século XX, o teólogo Paul Tillich chamou essa busca fundamental de “preocupação última”, aquilo que dá direção e significado à existência.

No mundo contemporâneo, porém, muitos indivíduos experimentam um vazio interior. A sociedade oferece inúmeros meios, mas poucos fins. Há abundância de informação, mas escassez de sentido. Quando o “porquê” desaparece, surgem o tédio, a ansiedade e a sensaçao de inutilidade.

Diria Joanna de Ângelis: “O ser humano é herdeiro de si mesmo e construtor do próprio destino. Somente o autoconhecimento liberta das sombras e conduz à plenitude.

Essa ideia significa que cada pessoa carrega consigo os efeitos de suas próprias escolhas, hábitos e pensamentos, mas também possui a liberdade de transformar a própria vida por meio da consciência. Um exemplo simples pode ser visto no jovem que cresce em ambiente marcado pela violência ou pela pobreza. Se ele apenas reproduz os padrões que recebeu, perpetua o ciclo de sofrimento. Mas quando passa a refletir sobre si mesmo, reconhecendo suas limitações e potencialidades, pode escolher novos caminhos – o estudo, o trabalho digno, o serviço à comunidade. Nesse momento ele deixa de ser apenas produto do passado e torna-se autor de sua própria história.

Assim, a frase de Nietzsche, aprofundada por Viktor Frankl e dialogando com diferentes tradições filosóficas e espirituais, revela uma verdade essencial: quando o ser humano encontra um sentido para viver, descobre também a força necessária para atravessar as dificuldades da existência. O sofrimento deixa de ser apenas peso e transforma-se em parte do caminho de crescimento humano.

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Abilio Wolney Aires Neto

Magistrado e Delegado Adjunto da ABRAME/GO