Toda produção mediúnica está sujeita à análise e, de consequência, a críticas.
Não há médium, por mais consagrado que seja, que esteja imune ao exame das mensagens por ele produzidas na área da mediunidade.
Isto é da essência do fenômeno: submeter ao crivo da razão toda mensagem, para se verificar se procede, de fato, daquele que se intitula seu emissor.
Muitos podem ser os escolhos na recepção mediúnica. Não apenas as dificuldades pessoais dos médiuns como a qualidade da sintonia com os desencarnados.
O Apóstolo João nos alertou: “Amados, não creais em qualquer Espírito: experimentai se os Espíritos são de Deus, porquanto muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (João, Epístola 1ª, 4:1).
Sobre este ensinamento, Allan Kardec, o Codificador do Espiritismo comenta em O Evangelho Segundo o Espiritismo que “os fenômenos espíritas, longe de abonarem os falsos Cristos e falsos profetas, como a algumas pessoas apraz dizer, golpe mortal desferem neles. (…) Quem, portanto, se sentisse tentado a lhe explorar em proveito próprio os fenômenos, fazendo-se passar por messias de Deus, não conseguiria abusar por muito tempo da credulidade alheia e seria logo desmascarado.(…) Julgam-se os Espíritos pela qualidade de suas obras, como uma árvore pela qualidade dos seus frutos” (cap. XXI, item 7).
Em outra obra, Kardec diz que a questão da identidade dos Espíritos é uma das mais controvertidas, uma das maiores dificuldades do Espiritismo prático (cap. 24 de O Livro dos Médiuns, item 255).
Desse modo, nenhum médium deve se sentir constrangido ou desconfortável se a sua mediunidade for posta à prova, posto que, segundo Kardec, “o Espiritismo nos faculta os meios de experimentá-los, apontando os caracteres pelos quais se reconhecem os bons Espíritos, caracteres sempre morais, nunca materiais” (idem).
Nenhum médium, pois, há de se sentir ofendido ou melindrado caso suas obras sejam examinadas para saber se procedem de fonte segura, se estão a veicular mensagem que verta de fonte pura e cristalina, se não estão eivadas de influência negativa que as desnature ou macule a origem.
A recomendação do Espírito Erasto é a de que “melhor é repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea” (O Livro dos Médiuns, segunda parte, cap. XX, item 230).
É ainda do Espírito Erasto a assertiva de que “o verdadeiro missionário de Deus tem de justificar, pela sua superioridade, pelas suas virtudes, pela grandeza, pelo resultado e pela influência moralizadora de suas obras, a missão de que se diz portador. (…) Numa palavra: os verdadeiros profetas se revelam por seus atos, são adivinhados, ao passo que os falsos profetas se dão, eles próprios, como enviados de Deus. O primeiro é humilde e modesto; o segundo, orgulhoso e cheio de si, fala com altivez e, como todos os mendazes, sempre temeroso de que não lhe deem crédito.” (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XXI, item 9).
Adiante, o mesmo Espírito Erasto, discípulo de São Paulo, afirma que “é incontestável que, submetendo ao crivo da razão e da lógica todos os dados e todas as comunicações dos Espíritos, fácil se torna rejeitar a absurdidade e o erro” (idem).
Ressalta desses ensinamentos a necessidade inadiável de submeter à lógica e à razão toda comunicação, não pelo prazer de discordar, mas porque nenhum médium está indene à influência maléfica de Espíritos embusteiros ou enganadores.
Na Revista Espírita de Maio de 1860 consta que, na ata da sessão de 13/4/1860 da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas “como assunto de estudo, propõe o Sr. Allan Kardec o exame aprofundado e minucioso de certas mensagens espontâneas e de outras, que poderiam ser analisadas e comentadas, como se faz com as críticas literárias. Tal gênero de estudo teria a dupla vantagem de exercitar a apreciação do valor das comunicações espíritas e, em segundo lugar e em consequência da mesma apreciação, de desencorajar os Espíritos enganadores que, vendo suas palavras epilogadas, controladas pela razão e finalmente repelidas, desde que tenham um cunho suspeito, acabariam por compreender que perdem seu tempo.”
José Raul Raul Teixeira comenta, no livro Diretrizes de Segurança, que “foi perguntado a Chico Xavier, e publicado no livro ‘No mundo de Chico Xavier’ se alguma vez ele teria sido alvo de mistificação de parte de espíritos. Ele disse que sim. E quando foi inquirido sobre qual a razão porque Emmanuel lhe permitira essa vivência de algum espírito comunicar-se e dizer quem não era, ele afirmou que aquilo se destinava a que ele visse que não estava invulnerável à insuflação negativa. Jesus Cristo teve ensejo de dizer que, se possível fosse, essas entidades, os falsos profetas, enganariam aos próprios eleitos. Costumamos nos indagar: ‘E nós que ainda somos apenas candidatos?’ ” (resposta à questão 95).
Se Chico Xavier, com tantas décadas de sacrifício e dedicação à mediunidade, ainda estava sujeito às investidas dos Espíritos mistificadores, que diremos nós, que ainda estamos tateando neste terreno tão delicado, da mediunidade com Jesus?
Sabemos todos que a mistificação pode partir do próprio médium, que forja a comunicação, por interesses diversos. Raul Teixeira lembra – na obra e resposta acima citada – que, neste caso, “no início é o próprio indivíduo com a sua mente doente mas, a partir daí, passa a atrelar-se a entidades mistificadoras, submetido, então, à influência espiritual”, advindo então uma ‘sociedade de forças’.
Porém, mesmo partindo do pressuposto de que o médium sempre esteja agindo de boa-fé e com a mais nobre das intenções, a da caridade, ainda assim, ele não está livre de sofrer o assédio dos Espíritos que, por diversas razões, podem comprometer a mensagem.
No caso da recepção de mensagens de familiares desencarnados, por exemplo, é o Espírito Camilo quem esclarece que “são raros os médiuns que registram com exatidão, e pouca margem de erros, elementos como: nomes e apelidos, jargões usados em família ou pelo grupo de amigos ao qual era vinculado, peculiaridades do trato com as variadas situações da vida. Isso porque, para se comunicar, o Espírito desencarnado se identifica com o Espírito do médium; esta identificação não se pode verificar, senão havendo, entre um e outro, simpatia e , se assim é lícito dizer, afinidade”. São muito raros, repetimos, esses exemplares mediúnicos.
Prossegue o Espírito Camilo:
“Muitas pessoas que adorariam transmitir mensagens consoladoras a familiares sofridos de desencarnados, valendo-se da mediunidade, correndo o risco dos desmentidos, bem poderiam consolar, socorrer a tantas famílias, com as lúcidas lições da Doutrina Espírita, permitindo-se raciocinar com os enlutados parentes, levando-os não a obter mensagens de conteúdo particular, mas a captar a boa nova da informação doutrinária, cheia de lógica, plena de bom senso, facultando que a parentela dos desencarnados passe a enxugar as suas lágrimas de dor e de saudade com o amparo prestado a outros, em similares ou mais intensos estados de sofrimento que os seus próprios” (resposta à questão 69, do livro Desafios da Mediunidade, psicografia de José Raul Teixeira).
Que esses apontamentos nos sirvam para uma oportuna reflexão!
Referências
APÓSTOLO JOÃO, Epístola 1ª, 4:1
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 126ª ed. Brasília, DF: FEB, 2006.
KARDEC, Allan. o Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro. 61ª ed. Brasília, DF: FEB, 1995.
Revista Espírita. Maio de 1860.
TEIXEIRA, Raul e Divaldo Franco. Diretrizes de Segurança. 9ª ed. 1990. Ed. Frater, RJ, questão 95.
CAMILO (Espírito). Desafios da Mediunidade. 2ª ed. 2001. Ed. Frater, RJ, questão 69. Psicografia de José Raul Teixeira.