O Espírito Joanes1 aborda a vida religiosa, observando, logo de início, que existe uma confusão na Terra em relação ao que se chama de vida religiosa, por causa da deficiência dos conceitos de religião.
Os benfeitores da Humanidade ressaltam ser Jesus o Modelo mais perfeito que Deus ofereceu ao Homem para servir de guia,2 o que nos conduz a lembrar as lições de Emmanuel sobre religiosidade.
O benfeitor ensina que Jesus tem orientado todo o desenvolvimento da Humanidade terrena enviando Seus iluminados mensageiros, em todos os tempos, aos agrupamentos humanos. Especificamente no campo religioso, esclarece que, […] desde que o homem conquistou a racionalidade, vem-lhe fornecendo a ideia da sua divina origem, o tesouro das concepções de Deus e da imortalidade do espírito, revelando-lhe, em cada época, aquilo que a compreensão pode abranger.3
Ensina ainda Emmanuel que as primeiras organizações religiosas da Terra tiveram, naturalmente, sua origem entre os povos primitivos do Oriente, aos quais enviava Jesus periodicamente, os Seus mensageiros e missionários.4
Fo-Hi, Confúcio, Hermes, Pitágoras e Sidarta Gautama, dentre outros, foram mensageiros da sabedoria, trazendo ao mundo a ideia de Deus e das leis morais às quais os homens devem se submeter para que possam evoluir. […] Compelidos, em razão do obscurantismo dos tempos, a revestir seus pensamentos com os véus misteriosos dos símbolos, como os que se conheciam dentro dos rigores iniciáticos, foram os missionários do Cristo preparadores dos Seus gloriosos caminhos.5
A lei mosaica foi precursora direta do Evangelho de Jesus através do fortalecimento do monoteísmo e do estabelecimento do Decálogo, sob inspiração divina. Moisés foi o primeiro a tornar acessíveis às massas populares os ensinamentos somente conseguidos à custa de longa e penosa iniciação, com a síntese luminosa de grandes verdades.
Vamos percebendo, assim, que a crença em Deus (único) e na imortalidade começava a ser ideia comum. A prática mediúnica era encontrada em diversos povos apesar de não ser bem compreendida. A ideia das vidas sucessivas era divulgada, de forma incipiente e confusa. Quando as condições se fizeram propícias, Cristo veio pessoalmente à Terra para transmitir as Leis de Deus e impulsionar nossa evolução.
Sua vinda foi prevista nas tradições religiosas de diversos povos. Isso ficou evidente com a visita dos magos, sábios de diferentes países que sabiam do nascimento de Jesus e seguiram os sinais do céu para O visitarem e O presentearem.
Com Jesus, foram estabelecidas as bases da Era do Amor, modificando as estruturas éticas do comportamento humano.
No Sermão da Montanha6 está resumida a doutrina de amor do Cristo. Ele consolidou o mecanismo de intercâmbio espiritual, sem formalismo, ao conversar com os mortos que perturbavam os chamados endemoniados7 e quando dialogou com Moisés e Elias, no Tabor.8 Após a crucificação, voltou da morte confirmando a imortalidade triunfante.
Ele nos falou das muitas vidas ao declarar que João Batista era Elias renascido9 e esclareceu para Nicodemos a necessidade do nascer de novo.10 Afirmou que há muitas moradas na casa do Pai,11 introduzindo a ideia dos múltiplos planetas habitados no Universo.
Como não podia dizer tudo e diante da profunda melancolia causada pela Suas iminentes prisão e morte, afirmou que não nos deixaria órfãos e que mandaria outro Consolador12 para ficar eternamente conosco, lembrar os ensinamentos originais em sua pureza e ensinar o que não poderia ser dito porque não seria compreendido, naquele momento.
Depois de Sua partida, a pureza de Seus ensinamentos foi mantida, por aproximadamente trezentos anos, período de lutas e perseguições.
Em 13 de junho de 313, o Edito de Milão reconheceu como lícito o direito de ser cristão. A partir daí, os pais da Igreja primitiva constataram a queda da fé e lamentaram a mundanização da doutrina com a ritualística e as cerimônias herdadas do politeísmo romano.13
Foram introduzidos hábitos e reformas que distanciavam a mensagem de Seu autor. A pureza original foi se perdendo, como observou o Espírito Léon Denis.12
Léon Denis pontua que no ano 320 foi introduzido o uso de velas no culto; em 375, a devoção aos santos; em 394, foi instituída a missa; em 528, surgiu a extrema-unção; em 555, a reencarnação foi considerada heresia no Concílio de Constantinopla; em 1076, fez-se a infalibilidade da Igreja, o que culminou com a infalibilidade do Papa em 1870; em 1184, foi criada a Santa Inquisição; e, em 1190, a venda de indulgências.
Durante todo esse período, ao comando do Cristo, renasceram missionários na Terra e no próprio seio da Igreja Cristã, na busca por progredir com a ciência e manter a mensagem do Amor.
Como era necessário o retorno à pureza, Cristo mandou Seus reformadores: em 1182, nasceu, na Úmbria, Francesco Bernardoni, que ouviu do próprio Cristo o pedido para reformar a sua Igreja. Empenhou-se na reconstrução da Igreja de São Damião, compreendendo, depois de algum tempo de trabalho e reflexões, verdadeiramente o pedido de Cristo. Como Francisco de Assis, transformou o pensamento da Humanidade através da vivência do amor puro, desapegando-se completamente dos bens materiais.
Jovens de todas as partes do mundo conhecido ouviram o cântico do doce poverello (pobre rapaz) e passaram a agir de forma diferente, transformando a forma de vida da época. Acompanhado de alguns deles, Francisco foi recebido pelo Papa, que autorizou a criação de sua ordem para que ele pudesse continuar a cantar o Amor em sua forma mais pura.
Em um momento único, presenciado pelos freis Masseo e Angelo, pregou o Evangelho aos pássaros e ali percebeu a unidade universal do homem com todas as criaturas, inaugurando o que hoje chamamos de Ecologia.
Cristo mandou outros reformadores. Em 1369, Jan Hus veio pregar a necessidade de mudanças na Igreja. Morreu condenado por heresia. Martinho Lutero, em 1483, seguiu os passos reformistas de Jan Hus e, em 1517, fixou na porta da Capela de Wittemberg, na Alemanha, 95 teses para a reforma da Igreja. Sua proposta não foi aceita e ele foi excomungado. Surgiu, então, a chamada Reforma Protestante.
Os discípulos e seguidores de Lutero se separaram criando correntes e igrejas em números surpreendentes.
Depois da descoberta do chamado Novo Mundo pelas grandes navegações, após a abertura da compreensão do bem, do belo e do poder pensar provocada pela Revolução Francesa, que libertou os pensamentos filosófico e científico dos limites dos domínios do pensamento religioso de então, fez-se propício o tempo da chegada do novo Consolador.
Em abril de 1857, Allan Kardec apresentou ao mundo a primeira edição de O Livro dos Espíritos, em que esclarece ser filosofia espiritualista para, posteriormente, nos apresentar a Doutrina Espírita como Filosofia, Ciência e Religião.
O Espiritismo restaura os ensinamentos originais de Jesus. Tem por princípios básicos a existência de Deus, a imortalidade da alma, a comunicabilidade dos Espíritos, a reencarnação e a pluralidade dos mundos habitados.
Aquelas verdades, apresentadas desde o início e divulgadas de forma confusa, ressurgiram com clareza.
[…] Foi quando o Espiritismo fez sentir mais claramente a grandeza do seu ensinamento, dirigindo-se não só ao coração do homem, mas igualmente ao seu raciocínio. O céu descerrou um fragmento do seu mistério e a voz dos espaços se fez ouvir, ensina Emmanuel.14
Deus nos é apresentado como a Inteligência Suprema, Causa primária de todas as coisas. Afastada a visão de um Deus humano, passamos a ter ciência dos Seus atributos: único, eterno, onipotente, imaterial, imutável, soberanamente justo e bom.
Passou a ser necessário o uso da razão para a compreensão desse Deus que é força, mas também amor, na acepção trazida por Jesus. Um Pai que cuida de toda a Sua Criação com leis perfeitas.
A imortalidade da alma é esclarecida através da comunicabilidade dos Espíritos. A mediunidade, que sempre existiu, agora devidamente estudada, pode ser praticada sem medo, abrindo-se definitivamente a porta dos céus com a criação de uma ponte permanente, entre o mundo dos chamados mortos e o dos vivos.
Através da compreensão da reencarnação e da pluralidade dos mundos habitados, entendemos que tivemos outras vidas antes da atual e que outras teremos, que podemos já ter vivido em outros mundos e que em outros planetas viveremos. Compreendemos melhor a Lei da Justiça e tudo passa a ter um sentido na medida em que a cada um será dado segundo suas obras.
Aprendemos que todo efeito está relacionado a uma causa, diluindo-se as aparentes injustiças terrenas. Abre-se, com clareza, um futuro feliz que pode começar a ser construído através de atos dignos e nobres. Surge uma paz, consequência de sabermos da existência de outros mundos melhores que o nosso e que, assim como nós, os mundos progridem e nossa Terra será, mais adiante, um planeta melhor.
A partir desses princípios básicos, surge uma série de consequências morais que devem ser entendidas e vividas para o alcance da felicidade e a necessidade de um mergulho interior com uma verdadeira transformação moral.15
Kardec propôs a Caridade como bandeira permanente num sentido diferente e mais profundo, com benevolência, indulgência e perdão.16
E a nossa vida religiosa? O benfeitor Joanes nos lembra que ela precisa ter o aroma das reais virtudes; um contato mais próximo de Deus, do Cristo ou dos prepostos da Luz Divina; renovação interior e realizações nobres e úteis para o próximo.
Meditemos sobre esses pensamentos e princípios que nos chegaram graças ao esforço e planejamento de Jesus e Seus prepostos. Vivamos, na medida do possível, na busca da pureza do Evangelho, na beleza das bem-aventuranças, na intensidade e na simplicidade de Jesus e de Seus missionários, na tranquilidade que a compreensão espírita nos permite para que a nossa existência possa ter um significado feliz exalando o perfume do Amor.
Referências:
- TEIXEIRA, J. Raul. Para uso diário. Pelo Espírito Joanes. Niterói: Fráter, 2004. cap. 12. ↩︎
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2013. pt. 3, cap. I, q. 625. ↩︎
- XAVIER, Francisco Cândido. Emmanuel. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1981. cap. II. ↩︎
- _______________. A caminho da luz. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 2010. cap. IX. ↩︎
- XAVIER, Francisco Cândido. Emmanuel. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1981. cap. II. ↩︎
- BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 5, vers. 1 a 12. ↩︎
- Op. cit. Marcos. cap. 5, vers. 1 a 20. ↩︎
- Op. cit. cap. 9, vers. 2 a 10. ↩︎
- Op. cit. Mateus. cap.17, vers. 10 a 13. ↩︎
- Op. cit. João. cap. 3, vers. 1 a 12. ↩︎
- Op. cit. cap. 14, vers. 1 a 3. ↩︎
- Op. cit. cap. 14, vers. 15 a 17 e 26. ↩︎
- FRANCO, Divaldo Pereira. Seara do Bem. Por Espíritos diversos. Salvador: LEAL, 1984. cap. 20. ↩︎
- XAVIER, Francisco Cândido. Emmanuel. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1981. cap. XXVI. ↩︎
- KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2013. cap. XVII, item 4. ↩︎
- _______________. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2013. pt. 3, cap, XI, q. 886. ↩︎
Publicação original
O autor autorizou a republicação do artigo publicado originalmente no site Mundo Espirita, nesse link: https://www.mundoespirita.com.br/?materia=nossa-vida-religiosa