Estudada no campo da genética, a hereditariedade pode ser definida como a transmissão de características de pais para filhos ao longo das gerações.
A indagação que surge para nós, espíritas, é sobre a participação espiritual nesse processo, que, em um primeiro olhar, é todo material, ou seja, dos corpos físicos dos genitores, que transmitem suas características a seus descendentes.
Esse tema está presente na Codificação e em diversas outras obras espíritas.
Léon Denis, o clássico escritor espírita, afirma:
A hereditariedade é, ninguém o ignora, a transmissão das propriedades de um indivíduo aos seus descendentes; as influências hereditárias são consideradas nos dois pontos de vista, físico e psíquico. […] 1
Allan Kardec também se interessou pelo tema, como vemos na questão em O Livro dos Espíritos:
Frequentemente, os pais transmitem aos filhos a parecença física. Transmitirão também alguma parecença moral?
Não, que diferentes são as almas ou Espíritos de uns e outros. O corpo deriva do corpo, mas o Espírito não procede do Espírito.[…]
Donde se originam as parecenças morais que costumam haver entre pais e filhos?
É que uns e outros são Espíritos simpáticos, que reciprocamente se atraíram pela analogia dos pendores.2
Os benfeitores da Humanidade esclarecem não haver transmissão da parecença moral e apresentam a questão da afinidade para explicar tais semelhanças. Assim, vamos compreendendo as influências tanto no campo físico quanto no campo psíquico, de acordo com a definição de Léon Denis.
Prosseguindo nos estudos, percebemos que a reencarnação vai trazer novas luzes no campo da formação dos corpos físicos.
A benfeitora Joanna de Ângelis, através da abençoada mediunidade de Divaldo Franco, ensina:
A reencarnação é a mais excelente demonstração da Justiça Divina, em relação aos infratores das Leis, na trajetória humana, facultando-lhes a oportunidade de ressarcirem numa os erros cometidos nas existências transatas.
[…]
A reencarnação enseja, mediante processo racional, a depuração do espírito que evolve, contribuindo simultaneamente para o aperfeiçoamento e a sutilidade da própria organização física, nos milénios contínuos da evolução.3
Assim, vamos aprendendo que o processo reencarnatório possibilita todo o processo evolutivo.
Sobre o tema, Allan Kardec já havia colhido importante material em seus questionamentos:
Como pode a alma, que não alcançou a perfeição durante a vida corpórea, acabar de depurar-se?
Sofrendo a prova de uma nova existência.
Como realiza essa nova existência? Será pela sua transformação como Espírito?
Depurando-se, a alma indubitavelmente experimenta uma transformação, mas para isso necessária lhe é a prova da vida corporal.
A alma passa então por muitas existências corporais?
Sim, todos contamos muitas existências. Os que dizem o contrário pretendem manter-vos na ignorância em que eles próprios se encontram. Esse o desejo deles.
Parece resultar desse princípio que a alma, depois de haver deixado um corpo, toma outro, ou, então, que reencarna em novo corpo. E assim que se deve entender?
Evidentemente.4
Sobre a formação do corpo físico, o benfeitor Emmanuel, pela abençoada mediunidade de Francisco Cândido Xavier, esclarece:
[…] todo berço de agora retrata o ontem que passou.
O caminho que iniciamos em determinada existência é o prolongamento dos caminhos que percorremos naquelas que a precederam.
[…]
Na câmara uterina, o reflexo dominante de nossa individualidade impressiona a chapa fetal ou o conjunto de princípios germinativos que nos forjam os alicerces do novo instrumento físico, selando-nos a destinação para as tarefas que somos chamados a executar no mundo, em certa quota de tempo.
[…]
É desta maneira que comumente renascemos na Terra, segundo as nossas dívidas ou conforme as nossas necessidades, assimilando para esse fim a essência genética daqueles que se nos afinam com o modo de proceder e de ser.
Os problemas da hereditariedade, em razão disso, descendem, de forma geral, dos reflexos mentais que nos sejam próprios.5
Fica claro, assim, que o Espírito, no processo reencarnatório, será responsável pela formação do seu novo corpo através de seus pensamentos, os quais refletem as conquistas e problemas trazidos com ele.
Nesse processo de formação dos corpos, é necessário lembrar o perispírito, esse envoltório semimaterial que serve de intermediário entre o corpo físico e o Espírito.
Allan Kardec leciona:
[…] Em virtude de sua natureza etérea, o Espírito, propriamente dito, não pode atuar sobre a matéria grosseira, sem intermediário, isto é, sem o elemento que o liga a matéria. Esse elemento, que constitui o que chamais perispírito, vos faculta a chave de todos os fenômenos espíritas de ordem material.6
Em relação à formação dos corpos e ao perispírito, o benfeitor Camilo, através de Raul Teixeira, elucida:
Reconhecemos, então, como sendo do perispírito a responsabilidade pela organização do complexo celular, determinando, nas reencarnações humanas, a fixação das caracterizações de ordem genética, no quadro de necessidades e méritos que a Providência Celeste processa, devidamente. Na sua possibilidade plástica, é dotado da função modeladora da forma, dando-lhe, sob o comando espiritual, mental, a expressão de que necessita para que essa forma material seja ideal para atender as necessidades diversas do reencarnante ao consumar-se a reencarnação.7
Vamos, assim, entender a função do perispírito de modelar o corpo, no seu processo de formação, sob o comando do Espírito reencarnante, através de seus pensamentos, que expressam as suas necessidades.
É evidente que o processo reencarnatório, em regra, é assistido por benfeitores espirituais, responsáveis pelos compromissos futuros do Espírito que renasce.
O benfeitor André Luiz faz menção a Institutos de escultura anatômica e a servidores da Justiça Espiritual que atuam nesse processo:
Institutos de escultura anatômica funcionam, por isso, no Plano Espiritual, brunindo formas diversas, de modo a orientar os mapas ou prefigurações do serviço a que aos reencarnantes competirá, mais tarde, atender.
[…]
[…] a reencarnação permanece sob os auspícios de autoridades e servidores da Justiça Espiritual, que administra recursos a cada aprendiz da sublimação, de acordo com as obras edificantes que lhes constem no currículo da existência.8
Com relação às afinidades encontradas nos grupos familiares, desdobrando os ensinamentos contidos em O Livro dos Espíritos, o benfeitor Emmanuel esclarece:
Cada criatura está provisoriamente ajustada ao raio de ação que é capaz de desenvolver ou, mais claramente, cada um de nós apenas, pouco a pouco, ultrapassará o horizonte a que já estenda os reflexos que lhe digam respeito.
[…]
É assim que na esfera do grupo consanguíneo o Espírito reencarnado segue ao encontro dos laços que entreteceu para si próprio, na linha mental em que se lhe caracterizam as tendências.
A chamada hereditariedade psicológica é, por isso, de algum modo, a natural aglutinação dos Espíritos que se afinam nas mesmas atividades e inclinações.
[…]
Uma família de músicos terá mais facilidade para recolher companheiros da arte divina em sua descendência, […].
É ainda assim que escultores e poetas, políticos e médicos, comerciantes e agricultores quase sempre se dão as mãos, no culto dos melhores valores afetivos, continuando-se, mutuamente, nos genes familiares, preservando para si mesmos, mediante o trabalho em comum e segundo a lei do renascimento, o patrimônio evolutivo em que se exprimem no espaço e no tempo.9
Dessa forma, à luz da veneranda Doutrina Espírita, vamos compreendendo o funcionamento do processo reencarnatório, através do qual, com absoluta justiça e com amor, herdaremos aquilo que nós próprios construímos no decorrer de nossas vidas. Conquistas, problemas, débitos e créditos farão parte de nosso campo mental e seus reflexos serão responsáveis pela formação do novo corpo, através do perispírito. Benfeitores queridos, responsáveis pela justiça e pelo progresso, secundarão esse processo de formação dos corpos para que haja o melhor proveito na futura reencarnação.
E os laços de afinidade e os compromissos assumidos serão responsáveis pela reunião com o grupo no qual vamos renascer ou com quem vamos nos reencontrar. É, ainda, Léon Denis que ensina:
Todos estes fenômenos, na sua variedade infinita, têm sua origem no passado da alma, nas numerosas vidas humanas que ela percorreu; cada um traz ao nascer os frutos da sua evolução, a intuição do que aprendeu, as aptidões adquiridas nos diversos domínios do pensamento e da obra social, na Ciência, no comércio, na indústria, na navegação, na guerra etc.; traz habilidade para tal coisa de preferência a tal outra, segundo a sua atividade se exercitou num ou noutro sentido.10
Compreender esse processo ilumina o nosso presente e, mais ainda, nos impulsiona a fazer melhores escolhas, a construir um futuro feliz para os que estão à nossa volta, a buscar atos positivos e a criar, desde já, um campo mental mais pacífico e melhor através da mudança de pensamento, da oração e da vontade bem dirigida, no sentido de nosso próprio progresso e da felicidade.
Referências
- DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. Rio de Janeiro: FEB, 2008. pt. 2, cap. XV. ↩︎
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1987. pt. 2, cap. IV, q. 207 e 207 a. ↩︎
- FRANCO, Divaldo Pereira. Estudos Espíritas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Rio de Janeiro: FEB, 1983. cap. 8. ↩︎
- KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1987. pt. 2, cap. IV, q. 166 e 166 a, b, c. ↩︎
- XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1991. cap. 11. ↩︎
- KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Brasília: FEB, 2018. pt. 2, cap. IV, item 74, q. IX. ↩︎
- TEIXEIRA, J. Raul. Correnteza de luz. Pelo Espírito Camilo. Niterói: Fráter, 1991. cap. 2. ↩︎
- XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Evolução em dois mundos. Pelo Espírito André Luiz. Rio de Janeiro: FEB, 1977. pt. 1, cap. XIX, item Restringimento do corpo espiritual. ↩︎
- XAVIER, Francisco Cândido. Pensamento e vida. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1991. cap. 12. ↩︎
- DENIS, Léon, op. cit. ↩︎
Publicação original: FERREIRA, Marcelo Anátocles. Hereditariedade e reencarnação. Jornal Mundo Espírita, Curitiba, maio 2026. Disponível em: Jornal Mundo Espírita.