O Tribunal da Consciência

O “Código Penal da Vida Futura” aparece em O Céu e o Inferno, de Allan Kardec (1ª Parte, cap. 7).

No seu item 24, o professor Allan Kardec aborda o tema da presença incessante das vítimas e circunstâncias do crime, com a seguinte frase: Para o criminoso, a visão incessante das suas vítimas e das circunstâncias do crime é um cruel suplício. Essa visão incessante não se trata apenas de uma visão material, como se o espírito estivesse vendo um “filme” externo repetindo o crime. Trata-se de uma vivência psíquica e moral.

No estado espiritual a memória não se apaga como no corpo físico; não há distrações sensoriais que anestesiem a consciência; o pensamento tem força de realidade. Assim, o espírito revive o ato; lembra-se do que fez, percebe com clareza o impacto causado, sente, por empatia ampliada, a dor da vítima. O suplício nasce do encontro direto entre o espírito e a verdade de si mesmo. O sofrimento vem da lei de causa e efeito, que atua de dentro para fora. O criminoso sofre porque compreende plenamente a injustiça do que fez; não pode mais se enganar com justificativas sociais, passionais ou circunstanciais; percebe que feriu outro ser humano, violando a lei do amor. Esse sofrimento é moral, não físico; interno, não imposto; proporcional ao grau de consciência. Quanto mais lúcido o espírito, mais intensa a dor moral.

Outro ponto crucial: as vítimas não são instrumentos de vingança. Em muitos casos a vítima não deseja punir; já pode estar em processo de recuperação espiritual; às vezes sequer está conscientemente ligada ao agressor. O que o criminoso “vê” é a imagem mental e moral da vítima, o reflexo da dor que causou, a lembrança viva do desequilíbrio criado. É a própria consciência que projeta essa visão, não a vítima que acusa.

Na vida material, o criminoso pode negar, esquecer, racionalizar, culpar o outro, anestesiar-se com prazer, poder ou distrações. No plano espiritual não há fuga da consciência; não há anestesia moral; o tempo não apaga o erro. A dor é cruel porque é contínua enquanto não há arrependimento sincero; expõe o espírito à verdade sem filtros; obriga-o a sentir aquilo que negou sentir em vida. O sofrimento diminui quando o espírito reconhece o erro sem se justificar; deseja sinceramente reparar o mal; aceita a necessidade de aprendizado. A partir daí a “visão incessante” perde força; surge a possibilidade de expiação consciente; a dor deixa de ser punição e passa a ser impulso de transformação.

O item 24 ensina que o maior tribunal é a própria consciência, e o mais severo juiz é o conhecimento pleno do mal praticado. Não há sadismo divino, nem prazer na punição. Há educação moral pela verdade.

Photo of author

Ney Wiedemann Neto

Delegado da ABRAME/RS e Desembargador no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul