ABRAME – A Hemorragia
A Hemorragia

Houve uma época, em meados de 1960, quando ele (Jerônimo Mendonça) ainda não enxergava, que quase desencarnou.

 

Uma hemorragia acentuada das vias urinárias o acometeu.

 

Nada a cessava. Estava internado num hospital em Ituiutaba, quando o médico amigo chamou os seus companheiros espíritas que ali estavam e lhes disse que o caso não tinha solução. A hemorragia não cedia, ele ia desencarnar.

 

— Doutor, será que podemos pelo menos levá-lo até Uberaba para despedir-se de Chico Xavier?

 

Eles são muito amigos.

 

— Só se for de avião. De carro ele morre no caminho.

 

Um de seus amigos tinha um avião. Levaram-no para Uberaba.

 

O lençol que o cobria era branco.

 

Quando chegaram a Uberaba, estava vermelho, tinto de sangue.

 

Chegaram à Comunhão Espírita, onde o Chico trabalhava então. Naquela hora, ele não estava, participava do trabalho de peregrinação, visita fraterna, levando o pão e o evangelho aos pobres e doentes.

 

Naquela época, Waldo Vieira era espírita. Ele chegou na frente e, com o recado do Chico, de que estava muito feliz com a sua vinda.

 

Na hora, Jerônimo se esqueceu da mediunidade de Chico e pensou: “Como é que ele sabe?”

 

Aí, lembrou que os espíritos foram avisá-lo.

 

Ao chegar, vendo o amigo vermelho de sangue, disse o Chico:

 

— Olha só quem está nos visitando! O Jerônimo está parecendo uma rosa vermelha! Vamos todos nós dar um beijo nesta rosa, mas com muito cuidado para ela não “despetalar”.

 

Um a um dos companheiros passavam e lhe davam um suave beijo no rosto. Ele sentia a vibração da energia fluídica que recebia em cada beijo. Finalmente, o Chico deu-lhe um beijo, colocando a mão no abdômen, permanecendo assim por alguns minutos. Era a sensação de um choque de alta voltagem saindo da mão do Chico o que Jerônimo percebeu.

 

A hemorragia parou.

 

Ele que, fraco, havia ido ali se despedir para desencarnar, então acabou fazendo explanação evangélica, a pedido do Chico, em seguida. E vem a explicação:

 

— Você sabe o porquê dessa hemorragia, Jerônimo?

 

— Não, Chico.

 

— Foi porque você aceitou o “coitadinho”. Coitadinho do Jerônimo, coitadinho. Você desenvolveu a autopiedade. Começou a ter dó de você mesmo. Isso gerou um processo destrutivo. O seu pensamento negativo fluidicamente interferiu no seu corpo físico, gerando a lesão. Doravante, Jerônimo, vença o coitadinho. Tenha bom ânimo, alegre-se, cante, brinque para que os outros não sintam piedade de você.

 

Ele seguiu o conselho. A partir de então, após as palestras, ele cantava e contava histórias hilariantes sobre as suas dificuldades. A maioria das pessoas esquecia, nestes momentos, que ele era cego e paralítico. Tornava-se igual aos sadios.

 

Sobreviveu quase trinta anos após a hemorragia “fatal”. Venceu o coitadinho. Que esta história nos seja exemplo para que nos momentos difíceis, tenhamos bom ânimo, vencendo nossa tendência natural de autopiedade e esmorecimento.

 

Extraído de O Gigante Deitado.

 

Matão: Clarim, 1994,

 

pp. 105 e segs.

 

Referência: 1ª Edição da Revista ABRAME.


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