ABRAME – A Paz do Cristo
A Paz do Cristo

A PAZ DO CRISTO – Fernando de Oliveira Samuel*

É no Evangelho de João que encontramos expressiva mensagem de Jesus ao estabelecer que existem pelo menos duas maneiras de se entender sobre a paz: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou. Eu não vos dou como o mundo a dá” (João, 14:27). Forçoso reconhecer que a paz do Cristo se diferencia da paz do mundo, de tal modo que podemos optar por determinado comportamento que irá nos levar a um ou a outro tipo de paz.

É justamente neste ponto que a proposta de Cristo se torna mais profunda. Ora, a paz do mundo é a refletida pelos desejos de que não soframos qualquer constrangimento ou obstáculo, tenhamos saúde física em perfeito equilíbrio, situação financeira sempre equilibrada, as pessoas que nos cerquem sejam apenas elogios a nossa postura… Enfim, como se o mundo estivesse a nosso serviço. Assim, sempre que nossos desejos – ainda que pareçam os mais legítimos – não são atendidos acreditamos vítimas de algum castigo, algo voltado a perturbar ou impedir que atinjamos o sentimento de quietude interior. Perceba-se que são acontecimentos externos que determinam , ou não, a paz do mundo.

Todavia, a paz do Cristo deve ser pensada de modo muito distinto, pois tem como parâmetro o próprio comportamento de Jesus, o modelo e guia para humanidade. No próprio capítulo 14 do Evangelho de João, pouco antes do Mestre tratar esses conceitos, consta exortação Dele aos discípulos “Quem possui meus mandamentos e os observa, esse é quem me ama” (João, 14:21). E ninguém duvida de que a mais profunda lição cristã está exatamente na máxima “fora da caridade não há salvação” (capítulo XV do Evangelho Segundo o Espiritismo).

Portanto, a paz de Jesus é alcançada pelo exercício contínuo da caridade, ou seja, do nosso próprio comportamento diante dos obstáculos da vida, para realizarmos essa profunda tarefa cristã. Kardec, com singular perspicácia, realizou essa pergunta aos espíritos: “Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, tal como Jesus a entendia?” (questão 886 do Livro dos Espíritos). E a resposta não poderia ser mais profunda: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas”.

A responsabilidade pela nossa paz não depende mais de qualquer acontecimento externo a nós, mas antes resulta de grande esforço pessoal na construção dessa virtude dentro de cada um. O momento de observar a imperfeição do outro demandará a indulgência, o exercício da misericórdia em nosso íntimo para a construção da paz. A condição de ofendido em determinada situação somente será vivenciada em sua plenitude caso posicionarmos nosso coração em ritmo de perdão. A educação, a sutileza e a humildade, esforços resultantes da benevolência, conduzirá ao caminho da quietude interior. Incrível pensar que Jesus nos confere, com essa proposta de paz, a absoluta e plena autonomia da vida: não necessitamos que nada ocorra fora de nós próprios para a assunção da plenitude de nossas existências, ou seja, de conquistarmos a paz ensinada por Ele.

E, pensando bem, esta pode ter sido uma de suas mais profundas lições, ao demonstrar serenidade nas situações mais adversas. Ora, que homem é esse que, mesmo ciente de que quase todos iriam lhe virar as costas nas próximas horas quando do testemunho extremo da cruz, convida seus discípulos para jantarem juntos em uma noite especial de Páscoa e amorosamente distribui bênçãos e lições eternas sobre a realidade maior da vida? Que homem esse que reúne tamanha paz que consola a própria mãe no momento em que está no mais profundo sofrimento físico e ainda promete lugar ao céu ao que padece ao seu lado? E poderíamos aqui anotar inúmeras outras perguntas sobre as reações de Cristo para descobrir de onde vem essa paz para constatar que nada do que ocorria no mundo externo a Ele interferia no seu modo de agir. Enquanto isso, muitos de nós fica no aguardo de inúmeros acontecimentos externos (ocorrências miraculosas, mudanças de comportamento de pessoas de nossa convivência, entre outras) para solucionar este ou aquele problema, como condição a adquirir essa paz cristã.

Com Cristo percebemos, de fato, a necessidade de realizarmos a nossa tarefa no bem, construindo dentro de nós condições para cada vez mais buscarmos a paz através da caridade pura, ou seja, sendo benevolente e indulgente, mas sobretudo perdoando.

 

* Juiz de Direito-GO / Membro do Conselho Fiscal da ABRAME


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